Somente em território brasileiro, doença ganha mais de 100 mil novos casos todos os anos
Diagnosticada em decorrência do aumento da opacidade no cristalino (estrutura ocular que permite a passagem de luz à retina, onde são formadas as imagens), a catarata aflige cerca de dois milhões de brasileiros, com aproximadamente 120 mil novos casos todos os anos, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). De acordo com a entidade, 51% dos casos de cegueira completa no mundo, num universo de 39 milhões de afetados, são causados pela catarata.
A doença ocorre, em sua forma mais comum, devido à idade e pode ser classificada como um processo natural que o corpo humano sofrerá, com variado grau de degeneração em cada pessoa. A catarata senil, recorrente a partir dos 50 anos, abrange aproximadamente 85% das ocorrências da doença no Brasil.
Outros fatores, entre eles a diabetes, traumas na região dos olhos, exposição a radiações, principalmente o raio-x ou UV, e até mesmo a ingestão de determinados medicamentos, como corticoides, podem originar a chamada catarata secundária. Crianças também são afetadas pela moléstia e existem casos de pessoas nascidas com a catarata congênita, de origem genética, mas que também pode ser desenvolvida por infecções intrauterinas, como a rubéola e sífilis.
Entre os principais indicativos de que um problema de visão pode ser associado à catarata estão enxergar de forma turva ou com pouca nitidez e uma maior sensibilidade à luz. Ao perceber tais sintomas, o paciente deve procurar um oftalmologista para fazer um diagnóstico preciso.
Contudo, por ser uma doença de lento avanço e não detectável a olho nu, muitas pessoas demoram para procurar um profissional especializado. Segundo Newton Kara-José, na pesquisa “Cirurgia de catarata: o porquê dos excluídos”, a demora dos diagnósticos ocorre, segundo os entrevistados pelo pesquisador que procuraram o Sistema Único de Saúde (SUS), por dificuldades financeiras ou por os pacientes acreditarem que ainda têm uma boa visão. Outro fator a ser destacado como uma dificuldade para a detecção da doença é o medo dos pacientes em caso de uma possível cirurgia.
Como prevenção ao avanço mais rápido da catarata, é indicado o uso de óculos, escuros e de grau, com proteção contra raios UV e evitar o uso abusivo de colírios e medicamentos que comprovadamente possam acelerar tal processo.
A única forma de cura para a catarata é um procedimento cirúrgico que retira o cristalino, já opaco, e insere em seu lugar uma lente intraocular. Existem técnicas variadas de operação e diferentes tipos de lentes, que são escolhidas de acordo com o perfil do paciente, traçado a partir do grau da doença e a saúde do indivíduo. O procedimento dura, em média, de 15 a 30 minutos e a anestesia é local.
O Ministério da Saúde e dos Municípios, a partir da Política Nacional de Acesso aos Procedimentos Cirúrgicos Eletivos, efetua mutirões para realizar cirurgias de média complexidade. A operação de catarata é o procedimento mais procurado do programa e em 2012, último ano com dados divulgados em âmbito nacional, mais de 400 mil pessoas foram operadas pelo SUS.
segunda-feira, 14 de março de 2016
domingo, 13 de março de 2016
Reflexão dos anos a mais
De forma quase imperceptível, nossos anos vão se esvaindo na mesmo proporção de que deixamos para trás, pelo menos do convívio diário, pessoas queridas. As quais, juntos, vivenciamos situações onde, quando lembramos, muitas vezes de forma nostálgica, nos faz refletir sobre como evoluímos como ser humano.
Uma lembrança da adolescência tem muito valor e sempre será guardada com carinho, acompanhada de um sorriso de canto de boca e um olhar para o nada ao ser revivida num daqueles momentos de ‘cabeça vazia’ muito frequentes no transporte público, ao menos para mim.
A saudade é realmente grande. E isso não está ligado umbilicalmente ao fato de sua vida estar menos emocionante e mais cheia de atribulações, afinal, provavelmente daqui a 10 anos você também lembrará dos dias de hoje com esse mesmo pequenino aperto no lado esquerdo da região torácica (não falarei coração porque este texto já ficou demasiado emocional).
Deixando de lado as mudanças físicas, como menos cabelo e mais tecido adiposo – desabafo –, nossa cabeça está sempre evoluindo e criando julgamentos diferentes a cada mês, dia ou segundo em que nos tornamos mais velhos. Se existisse uma impressora que relatasse cada reflexão nossa, iria faltar papel no mundo e provavelmente ela seria contaminada com o vírus da nossa loucura.
Tomar uma cerveja no posto de gasolina com os amigos era excitante, hoje seria deprimente. Julgar uma garota somente pela beleza parecia naturalmente essencial, mas alguns anos a mais ensinam a enxergar através de uma possível futilidade. Com a idade que temos hoje, nos imaginávamos seres muito mais – perdão – fodas e felizes numa redoma de vida perfeita, contudo, agora constatamos que a perfeição nunca chegará e as decepções são túmulos que escavamos para escapar rumo à sobrevivência, com uma assiduidade aterradora.
A inocência já foi uma virtude virulenta, e como eram bons aqueles saudosos tempos. Aqui, o cuidado deve ser posto como uma placa fosforescente enterrada diante de nossos olhos, porque o realismo não deve ser confundido com desesperança e se apegar ao passado nunca deu a ninguém um futuro. Cada tijolo que constrói nossa vida representa uma fase. Pode ser bom, pode ser ruim, mas isso nos manterá de pé.
Extremamente piegas, mas real.
E no entardecer do dia, ou quem sabe de uma vida, nossa massa cinzenta, tão cruel algumas vezes, queima sua energia para relembrar aqueles momentos dignos de um sorriso de canto de boca. Que no passado, talvez, foram situações que deixaram sua barriga doer de tanto rir, mas isso só mostra nossa constante mutação como seres humanos rumo ao mistério do que estamos nos tornando como indivíduos.
Uma lembrança da adolescência tem muito valor e sempre será guardada com carinho, acompanhada de um sorriso de canto de boca e um olhar para o nada ao ser revivida num daqueles momentos de ‘cabeça vazia’ muito frequentes no transporte público, ao menos para mim.
A saudade é realmente grande. E isso não está ligado umbilicalmente ao fato de sua vida estar menos emocionante e mais cheia de atribulações, afinal, provavelmente daqui a 10 anos você também lembrará dos dias de hoje com esse mesmo pequenino aperto no lado esquerdo da região torácica (não falarei coração porque este texto já ficou demasiado emocional).
Deixando de lado as mudanças físicas, como menos cabelo e mais tecido adiposo – desabafo –, nossa cabeça está sempre evoluindo e criando julgamentos diferentes a cada mês, dia ou segundo em que nos tornamos mais velhos. Se existisse uma impressora que relatasse cada reflexão nossa, iria faltar papel no mundo e provavelmente ela seria contaminada com o vírus da nossa loucura.
Tomar uma cerveja no posto de gasolina com os amigos era excitante, hoje seria deprimente. Julgar uma garota somente pela beleza parecia naturalmente essencial, mas alguns anos a mais ensinam a enxergar através de uma possível futilidade. Com a idade que temos hoje, nos imaginávamos seres muito mais – perdão – fodas e felizes numa redoma de vida perfeita, contudo, agora constatamos que a perfeição nunca chegará e as decepções são túmulos que escavamos para escapar rumo à sobrevivência, com uma assiduidade aterradora.
A inocência já foi uma virtude virulenta, e como eram bons aqueles saudosos tempos. Aqui, o cuidado deve ser posto como uma placa fosforescente enterrada diante de nossos olhos, porque o realismo não deve ser confundido com desesperança e se apegar ao passado nunca deu a ninguém um futuro. Cada tijolo que constrói nossa vida representa uma fase. Pode ser bom, pode ser ruim, mas isso nos manterá de pé.
Extremamente piegas, mas real.
E no entardecer do dia, ou quem sabe de uma vida, nossa massa cinzenta, tão cruel algumas vezes, queima sua energia para relembrar aqueles momentos dignos de um sorriso de canto de boca. Que no passado, talvez, foram situações que deixaram sua barriga doer de tanto rir, mas isso só mostra nossa constante mutação como seres humanos rumo ao mistério do que estamos nos tornando como indivíduos.
quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Ma'amoul - Jovens Muçulmanas em São Paulo
sexta-feira, 30 de outubro de 2015
União, organização e São Bernardo FC
Com esforço e poucos recursos, o time mais jovem do Grande ABC luta para alcançar o topo
“Não temos a intenção de ser o primeiro time de ninguém”. São as palavras pronunciadas pelo Diretor de Marketing do São Bernardo Futebol Clube, Thiago Ferreira, 21, dentro de seu escritório, num sobrado meio escondido, onde funciona a sede da diretoria do clube do Grande ABC. Lá, nada se vê de faixas ou placas com o nome do clube, a não ser uma Kombi estacionada bem em frente pintada com as cores preta, branca e amarela com um grande Tigre, o mascote do time, desenhado.
O “Bernô”, como é carinhosamente chamado pelos seus torcedores, é o clube mais jovem a conseguir disputar a série A1 do Campeonato Paulista. Com a marca de três acessos em apenas cinco anos, o time fundado em 2004 disputou a primeira divisão do Paulistão de 2011, mas foi rebaixado no mesmo ano, ainda que só perdesse para os quatro grandes do estado. O “Tigre do ABC” teve a quarta maior presença de público do campeonato com uma média de onze mil pessoas por jogo antes das finais do Paulistão, inclusive conseguindo ficar à frente do Santos. Atualmente o clube joga a Copa Paulista, e chega a atingir números de dois mil torcedores por jogo.
O palmeirense Vinícius Prudencio, que também é torcedor do “Bernô” por ser time da sua cidade, mesmo não indo ao estádio desde que acabou o Campeonato Paulista, acompanha o site do clube e confirma que a cidade abraçou o time. “Entro no site deles vira e mexe, mas desde que acabou o campeonato paulista que eu não vou ao estádio. Mas com certeza que a cidade abraçou o time, porque no ano passado quando estava pra subir, o estádio sempre lotava e chegou a ter facilmente treze mil pessoas. Esse ano não foi diferente, durante o paulistão todos os jogos estavam realmente lotados”, afirma o estudante de Ciências da Computação de 21 anos.
Depois de sentir o “gostinho” e as vantagens de se disputar um campeonato com visibilidade nacional, agora o São Bernardo FC tem de novo a missão de conseguir voltar à elite com valores arrecadados muito abaixo dos que recebia na última temporada.
De acordo com dados cedidos por Thiago, a Federação Paulista dá aos times que disputam a série A2 aproximadamente 60 mil reais pelo campeonato, enquanto durante a disputa da série A1 o São Bernardo FC ganhava somente de cotas de televisão Um milhão e quatrocentos mil reais, fora os patrocínios de camisa do banco BMG, da multinacional de materiais esportivos espanhola Kelme (empresa que fez as camisas do Real Madrid no início dos anos 2.000) e placas de estádio que vendem muito mais na elite do campeonato. “Na série A2 se arrecada menos de 30% do que se ganha disputando a série A1”, completa Thiago.
Para fugir do ostracismo e conseguir se manter durante a temporada, o clube usa da criatividade e esforço na busca por ajuda de patrocinadores e sociedades com empresas, como a parceria com a RedeTV+, que transmite todos os jogos do “Bernô” ao longo do ano para o ABC e empresas da região que compram grandes lotes de ingressos para os jogos da temporada e asseguram uma renda fixa e público sempre presente no estádio.
Nos quase sete anos de existência, foi fundado no dia 20 de dezembro de 2004, o São Bernardo FC além de conseguir atingir a elite do futebol do estado de São Paulo, também progrediu na questão estrutural e hoje tem recursos semelhantes ao dos grandes clubes do Brasil, com centro de fisiologia, médicos próprios, centro de treinamento, academia e alojamento.
O São Bernardo FC também tem um papel importante para a cidade, pois realiza um trabalho social chamado “Projeto Tigrinho”, que auxilia 35 escolinhas da região dando a aproximadamente seis mil crianças uniformes, material esportivo e treinos com instrutores.
Caio Sanchez, 18 anos, é um atleta profissional do time de São Bernardo do Campo e confirma que o time disponibiliza uma boa estrutura fundamental para que um bom trabalho seja desempenhado pelos jogadores. “O São Bernardo possui uma estrutura de dar inveja a muitos clubes de maior expressão. Isso devido à grande competência e organização de toda comissão técnica que soube investir e aproveitar ao máximo as condições adquiridas” diz Caio. “Tal comissão é formada por grandes profissionais que, na sua maioria, é composta por ex-jogadores. A estrutura em geral, os alojamentos, o campo, o refeitório, a academia e o departamento médico são todos da melhor qualidade”, completa o jogador que já teve passagem por outro clube da cidade, o Palestra de São Bernardo.
Para Thiago, um dos segredos desse sucesso e dessa organização do clube, é que tudo internamente é muito “casado”, com reuniões frequentes com o Presidente Luiz Fernando Teixeira que deixam acertado tudo que está acontecendo de bom e ruim nos vários departamentos do clube. “Junta todo mundo e perguntamos a cada um o que está tendo de problema nas áreas e lá também já é a hora de dizer ‘você está fazendo tudo errado e está prejudicando a mim e ao clube’. Lavar a roupa suja é ali. Somos todos muito unidos. Aqui todo mundo sabe de tudo que ocorre dentro do clube”, conta Thiago.
Esta organização também se estende entre os técnicos do time profissional e da base. Recentemente no comando do time principal do “Tigre do ABC”, o ex-técnico de Palmeiras, Botafogo e até pouco tempo do Ceará Estevam Soares era obrigado a acompanhar de perto as reuniões com a Diretoria e os treinos da categoria de base, mesmo que um pouquinho a contra gosto. “A gente obrigava ele a assistir aos treinos da base. Ele detestava isso, mas era obrigado porque era lá que o diretor de base avisava sobre determinado jogador que já estava pronto para subir e ele podia olhar o atleta mais de perto”, revela Thiago.
Todo esse rigor e competência têm reflexos nos resultados dentro do campo. Atualmente o time profissional está na Liderança da Copa Paulista e o sub-20 chegou até as quartas de final do Paulistão da categoria, caindo diante do Santos em dois jogos equilibrados. Para Caio, jogador do clube, a competência do São Bernardo pode ser um trampolim para a chegada de seus atletas a grandes clubes, pois “mesmo caindo de divisão, conseguiu mostrar sua força para os grandes e para a mídia. O clube já revelou alguns bons jogadores que estão espalhados pela segunda divisão do nacional”.
Outro orgulho do São Bernardo FC é a inexistente dependência financeira da prefeitura da cidade, diferente do que ocorre com seus irmãos Associação Desportiva São Caetano e Esporte Clube Santo André. A única parceria com o governo da cidade é a cessão do estádio 1º de Maio, que é de uso exclusivo do São Bernardo e gera um gasto mensal de até dez mil reais ao clube com a sua manutenção. Por outro lado, a arena foi reformada recentemente, é a mais moderna do ABC e provavelmente será a subsede de São Paulo na Copa de 2014. Lá será o lugar onde possivelmente ocorrerão os treinos da seleção brasileira, já que o estádio Bruno José Daniel, do Santo André, principal concorrente à vaga de subsede está interditado.
“Este foi o nosso grande ‘BUM’. Foi o auge. Nosso Presidente Luiz Fernando é amigo pessoal dele, e fez o convite para o Lula assistir no estádio o jogo contra o Corinthians. Ele veio e disse que o São Bernardo agora era o segundo time dele”, é o que diz Thiago sobre o evento que fez o pequeno e jovem “Bernô” aparecer nas manchetes de todo o mundo.
Com recém completados seis anos de existência, o time conseguiu o que a maioria dos times brasileiros tradicionais tenta até hoje. Graças a Lula, ganhou as páginas do site da FIFA e do The New York Times com imagens do ex-Presidente do Brasil e “O cara” de Obama com o coração e a camisa divididos entre Corinthians e São Bernardo FC.
Para o futuro, o clube primeiramente pensa continuar conquistando a cidade e num futuro não muito distante atingir a elite do futebol nacional. O projeto inicial de já começar disputando a série D do Brasileirão no segundo semestre foi quebrado por causa do rebaixamento no Campeonato Paulista.
“Nosso projeto é chegar o mais rápido possível à série A do Brasileiro. Não somos uma time que quer apenas lançar jogadores, como outros que preferem disputar campeonatos mais fracos e baratos para fazer caixa com os jogadores que vendem. Nossa meta é fazer futebol e alcançar a elite, ainda mais agora com o São Caetano e o Santo André em baixa”, finaliza Thiago.
“Não temos a intenção de ser o primeiro time de ninguém”. São as palavras pronunciadas pelo Diretor de Marketing do São Bernardo Futebol Clube, Thiago Ferreira, 21, dentro de seu escritório, num sobrado meio escondido, onde funciona a sede da diretoria do clube do Grande ABC. Lá, nada se vê de faixas ou placas com o nome do clube, a não ser uma Kombi estacionada bem em frente pintada com as cores preta, branca e amarela com um grande Tigre, o mascote do time, desenhado.
O “Bernô”, como é carinhosamente chamado pelos seus torcedores, é o clube mais jovem a conseguir disputar a série A1 do Campeonato Paulista. Com a marca de três acessos em apenas cinco anos, o time fundado em 2004 disputou a primeira divisão do Paulistão de 2011, mas foi rebaixado no mesmo ano, ainda que só perdesse para os quatro grandes do estado. O “Tigre do ABC” teve a quarta maior presença de público do campeonato com uma média de onze mil pessoas por jogo antes das finais do Paulistão, inclusive conseguindo ficar à frente do Santos. Atualmente o clube joga a Copa Paulista, e chega a atingir números de dois mil torcedores por jogo.
O palmeirense Vinícius Prudencio, que também é torcedor do “Bernô” por ser time da sua cidade, mesmo não indo ao estádio desde que acabou o Campeonato Paulista, acompanha o site do clube e confirma que a cidade abraçou o time. “Entro no site deles vira e mexe, mas desde que acabou o campeonato paulista que eu não vou ao estádio. Mas com certeza que a cidade abraçou o time, porque no ano passado quando estava pra subir, o estádio sempre lotava e chegou a ter facilmente treze mil pessoas. Esse ano não foi diferente, durante o paulistão todos os jogos estavam realmente lotados”, afirma o estudante de Ciências da Computação de 21 anos.
Depois de sentir o “gostinho” e as vantagens de se disputar um campeonato com visibilidade nacional, agora o São Bernardo FC tem de novo a missão de conseguir voltar à elite com valores arrecadados muito abaixo dos que recebia na última temporada.
De acordo com dados cedidos por Thiago, a Federação Paulista dá aos times que disputam a série A2 aproximadamente 60 mil reais pelo campeonato, enquanto durante a disputa da série A1 o São Bernardo FC ganhava somente de cotas de televisão Um milhão e quatrocentos mil reais, fora os patrocínios de camisa do banco BMG, da multinacional de materiais esportivos espanhola Kelme (empresa que fez as camisas do Real Madrid no início dos anos 2.000) e placas de estádio que vendem muito mais na elite do campeonato. “Na série A2 se arrecada menos de 30% do que se ganha disputando a série A1”, completa Thiago.
Para fugir do ostracismo e conseguir se manter durante a temporada, o clube usa da criatividade e esforço na busca por ajuda de patrocinadores e sociedades com empresas, como a parceria com a RedeTV+, que transmite todos os jogos do “Bernô” ao longo do ano para o ABC e empresas da região que compram grandes lotes de ingressos para os jogos da temporada e asseguram uma renda fixa e público sempre presente no estádio.
Nos quase sete anos de existência, foi fundado no dia 20 de dezembro de 2004, o São Bernardo FC além de conseguir atingir a elite do futebol do estado de São Paulo, também progrediu na questão estrutural e hoje tem recursos semelhantes ao dos grandes clubes do Brasil, com centro de fisiologia, médicos próprios, centro de treinamento, academia e alojamento.
O São Bernardo FC também tem um papel importante para a cidade, pois realiza um trabalho social chamado “Projeto Tigrinho”, que auxilia 35 escolinhas da região dando a aproximadamente seis mil crianças uniformes, material esportivo e treinos com instrutores.
Caio Sanchez, 18 anos, é um atleta profissional do time de São Bernardo do Campo e confirma que o time disponibiliza uma boa estrutura fundamental para que um bom trabalho seja desempenhado pelos jogadores. “O São Bernardo possui uma estrutura de dar inveja a muitos clubes de maior expressão. Isso devido à grande competência e organização de toda comissão técnica que soube investir e aproveitar ao máximo as condições adquiridas” diz Caio. “Tal comissão é formada por grandes profissionais que, na sua maioria, é composta por ex-jogadores. A estrutura em geral, os alojamentos, o campo, o refeitório, a academia e o departamento médico são todos da melhor qualidade”, completa o jogador que já teve passagem por outro clube da cidade, o Palestra de São Bernardo.
Para Thiago, um dos segredos desse sucesso e dessa organização do clube, é que tudo internamente é muito “casado”, com reuniões frequentes com o Presidente Luiz Fernando Teixeira que deixam acertado tudo que está acontecendo de bom e ruim nos vários departamentos do clube. “Junta todo mundo e perguntamos a cada um o que está tendo de problema nas áreas e lá também já é a hora de dizer ‘você está fazendo tudo errado e está prejudicando a mim e ao clube’. Lavar a roupa suja é ali. Somos todos muito unidos. Aqui todo mundo sabe de tudo que ocorre dentro do clube”, conta Thiago.
Esta organização também se estende entre os técnicos do time profissional e da base. Recentemente no comando do time principal do “Tigre do ABC”, o ex-técnico de Palmeiras, Botafogo e até pouco tempo do Ceará Estevam Soares era obrigado a acompanhar de perto as reuniões com a Diretoria e os treinos da categoria de base, mesmo que um pouquinho a contra gosto. “A gente obrigava ele a assistir aos treinos da base. Ele detestava isso, mas era obrigado porque era lá que o diretor de base avisava sobre determinado jogador que já estava pronto para subir e ele podia olhar o atleta mais de perto”, revela Thiago.
Todo esse rigor e competência têm reflexos nos resultados dentro do campo. Atualmente o time profissional está na Liderança da Copa Paulista e o sub-20 chegou até as quartas de final do Paulistão da categoria, caindo diante do Santos em dois jogos equilibrados. Para Caio, jogador do clube, a competência do São Bernardo pode ser um trampolim para a chegada de seus atletas a grandes clubes, pois “mesmo caindo de divisão, conseguiu mostrar sua força para os grandes e para a mídia. O clube já revelou alguns bons jogadores que estão espalhados pela segunda divisão do nacional”.
Outro orgulho do São Bernardo FC é a inexistente dependência financeira da prefeitura da cidade, diferente do que ocorre com seus irmãos Associação Desportiva São Caetano e Esporte Clube Santo André. A única parceria com o governo da cidade é a cessão do estádio 1º de Maio, que é de uso exclusivo do São Bernardo e gera um gasto mensal de até dez mil reais ao clube com a sua manutenção. Por outro lado, a arena foi reformada recentemente, é a mais moderna do ABC e provavelmente será a subsede de São Paulo na Copa de 2014. Lá será o lugar onde possivelmente ocorrerão os treinos da seleção brasileira, já que o estádio Bruno José Daniel, do Santo André, principal concorrente à vaga de subsede está interditado.
“Este foi o nosso grande ‘BUM’. Foi o auge. Nosso Presidente Luiz Fernando é amigo pessoal dele, e fez o convite para o Lula assistir no estádio o jogo contra o Corinthians. Ele veio e disse que o São Bernardo agora era o segundo time dele”, é o que diz Thiago sobre o evento que fez o pequeno e jovem “Bernô” aparecer nas manchetes de todo o mundo.
Com recém completados seis anos de existência, o time conseguiu o que a maioria dos times brasileiros tradicionais tenta até hoje. Graças a Lula, ganhou as páginas do site da FIFA e do The New York Times com imagens do ex-Presidente do Brasil e “O cara” de Obama com o coração e a camisa divididos entre Corinthians e São Bernardo FC.
Para o futuro, o clube primeiramente pensa continuar conquistando a cidade e num futuro não muito distante atingir a elite do futebol nacional. O projeto inicial de já começar disputando a série D do Brasileirão no segundo semestre foi quebrado por causa do rebaixamento no Campeonato Paulista.
“Nosso projeto é chegar o mais rápido possível à série A do Brasileiro. Não somos uma time que quer apenas lançar jogadores, como outros que preferem disputar campeonatos mais fracos e baratos para fazer caixa com os jogadores que vendem. Nossa meta é fazer futebol e alcançar a elite, ainda mais agora com o São Caetano e o Santo André em baixa”, finaliza Thiago.
terça-feira, 16 de junho de 2015
Entre um e outro talvez
Responder quem somos é – veja que não usei o advérbio talvez – uma das tarefas mais difíceis que existem, pois nunca vamos querer expor um lado nosso que não gostamos, principalmente para algo tão longínquo como a internet. Contudo, há alguns dias, quando remexia em textos do primeiro ano de faculdade, encontrei um bom gancho para esta malfadada missão. Vamos lá:
"Às vezes extrovertido. Às vezes tímido. Sempre sincero! Tenho vinte anos completos, e talvez só isso de completo. Sou meio loiro, meio gordo, meio jornalista, ainda. Nunca fui bom com as palavras faladas, mas sempre me encantei com as escritas; viajo com elas! Meu sangue italiano me fez palmeirense fanático, temperamental; o português ainda não sei, talvez um dia queira desbravar o mundo. Já quis ser dentista, músico, já não soube para onde correr. A MPB uma herança dos meus pais, o Rock 'n' Roll uma herança da vida. De cada dez palavras que saem da minha boca pelo menos cinco estão entre mano, 'véio' ou algum palavrão qualquer. Isso é ruim? Acho que se enquadra no meu corpo perfurado por piercings e rabiscado por tatuagens”.
Talvez – olha só quem apareceu – somente após observar uma produção antiga conseguimos refletir sobre o que éramos e como podemos nos metamorfosear, ou não, em apenas quatro anos (ou 8, ou 20). Um exemplo banal: meu corpo não é mais perfurado por piercings e os rabiscos de tatuagens eram apenas mais um desejo juvenil que ficou para trás, de braços dados com os manos e os ‘véios’. Isso é evolução ou apenas um abandono de ideais? Ainda não sei a resposta.
No mais, de forma geral, não mudaria a maioria do que foi posto nessa descrição feita em uma tarde de aula no Mackenzie. Provavelmente alteraria, apenas, a intensidade de cada característica em minha vida atualmente e acrescentaria uma maior habilidade em lidar com entreveros; o que, inevitavelmente, só ganhamos com o passar dos anos.
Independente do talvez, ou da falta dele, agora falo com toda a certeza que apesar do meu diploma continuo sendo um ‘meio jornalista’ e provavelmente o serei até o dia em que não terei mais aptidão ou sanidade suficiente para escrever um texto tão agradável como este. Afinal, sempre temos muito a aprender.
Viver com o jornalismo é estar todos os dias aberto e disposto a invadir um mundo que não necessariamente faria parte de sua rotina e desvendar todas as cavidades do nosso objeto de estudo. E aí, meu amigo, é que está, em minha opinião, todo o prazer do jornalismo e de ser jornalista: a degustação do diferente e a caça pelo desconhecido.
Não vou mentir e dizer que desde criancinha sonhava em ser jornalista, e fingia ser repórter ou fazia um jornalzinho com as últimas notícias do que sairia para o jantar em família. Escolhi tal carreira, à priori, por conta do meu gosto pela escrita, paixão que nasceu na fase final de minha adolescência e aumentou após várias leituras.
Com o passar dos anos de estudo na faculdade e a vivência no apaixonante caos de uma redação, apesar de algumas decepções e vislumbres que não se concretizaram, pude, então, ter o privilégio de adquirir o sonho de ser jornalista e me encantar com esse mundo cercado pelo imprevisível.
Minha curta, porém proveitosa, carreira de jornalista já me propôs experiências de conhecer outros mundos que nunca pensei um dia poder viver, como lidar com pessoas da periferia de São Paulo, conhecendo seus problemas, e aprender a fundo sobre a cultura islâmica.
Talvez – este com um viés de certamente – um dia me torne um poeta ou escritor, mas isso são planos para quando me restarem poucos cabelos na cabeça e minha barriga estiver ainda mais proeminente. Contudo, isso é um assunto para outros 4 mil caracteres. Nos próximos bons anos quero viver e aprender intensamente com o jornalismo.
"Às vezes extrovertido. Às vezes tímido. Sempre sincero! Tenho vinte anos completos, e talvez só isso de completo. Sou meio loiro, meio gordo, meio jornalista, ainda. Nunca fui bom com as palavras faladas, mas sempre me encantei com as escritas; viajo com elas! Meu sangue italiano me fez palmeirense fanático, temperamental; o português ainda não sei, talvez um dia queira desbravar o mundo. Já quis ser dentista, músico, já não soube para onde correr. A MPB uma herança dos meus pais, o Rock 'n' Roll uma herança da vida. De cada dez palavras que saem da minha boca pelo menos cinco estão entre mano, 'véio' ou algum palavrão qualquer. Isso é ruim? Acho que se enquadra no meu corpo perfurado por piercings e rabiscado por tatuagens”.
Talvez – olha só quem apareceu – somente após observar uma produção antiga conseguimos refletir sobre o que éramos e como podemos nos metamorfosear, ou não, em apenas quatro anos (ou 8, ou 20). Um exemplo banal: meu corpo não é mais perfurado por piercings e os rabiscos de tatuagens eram apenas mais um desejo juvenil que ficou para trás, de braços dados com os manos e os ‘véios’. Isso é evolução ou apenas um abandono de ideais? Ainda não sei a resposta.
No mais, de forma geral, não mudaria a maioria do que foi posto nessa descrição feita em uma tarde de aula no Mackenzie. Provavelmente alteraria, apenas, a intensidade de cada característica em minha vida atualmente e acrescentaria uma maior habilidade em lidar com entreveros; o que, inevitavelmente, só ganhamos com o passar dos anos.
Independente do talvez, ou da falta dele, agora falo com toda a certeza que apesar do meu diploma continuo sendo um ‘meio jornalista’ e provavelmente o serei até o dia em que não terei mais aptidão ou sanidade suficiente para escrever um texto tão agradável como este. Afinal, sempre temos muito a aprender.
Viver com o jornalismo é estar todos os dias aberto e disposto a invadir um mundo que não necessariamente faria parte de sua rotina e desvendar todas as cavidades do nosso objeto de estudo. E aí, meu amigo, é que está, em minha opinião, todo o prazer do jornalismo e de ser jornalista: a degustação do diferente e a caça pelo desconhecido.
Não vou mentir e dizer que desde criancinha sonhava em ser jornalista, e fingia ser repórter ou fazia um jornalzinho com as últimas notícias do que sairia para o jantar em família. Escolhi tal carreira, à priori, por conta do meu gosto pela escrita, paixão que nasceu na fase final de minha adolescência e aumentou após várias leituras.
Com o passar dos anos de estudo na faculdade e a vivência no apaixonante caos de uma redação, apesar de algumas decepções e vislumbres que não se concretizaram, pude, então, ter o privilégio de adquirir o sonho de ser jornalista e me encantar com esse mundo cercado pelo imprevisível.
Minha curta, porém proveitosa, carreira de jornalista já me propôs experiências de conhecer outros mundos que nunca pensei um dia poder viver, como lidar com pessoas da periferia de São Paulo, conhecendo seus problemas, e aprender a fundo sobre a cultura islâmica.
Talvez – este com um viés de certamente – um dia me torne um poeta ou escritor, mas isso são planos para quando me restarem poucos cabelos na cabeça e minha barriga estiver ainda mais proeminente. Contudo, isso é um assunto para outros 4 mil caracteres. Nos próximos bons anos quero viver e aprender intensamente com o jornalismo.
quarta-feira, 10 de junho de 2015
Ossos verdadeiros são soluções para implantes dentários
Algumas pessoas que ficaram durante um longo período sem um ou mais dentes sofrem com a reabsorção óssea na região da gengiva devido à falta de estímulo dos dentes. Isso acontece porque o organismo entende que não é necessário manter uma estrutura que não tem uso para o corpo.
Para esses casos, são indicados os procedimentos de enxerto ósseo na região sob a gengiva, exatamente no lugar onde ocorreu a reabsorção, para que seja estimulada a formação de uma nova estrutura de osso que possa comportar um implante dentário.
Atualmente, existem dois tipos de enxertos que são indicados para as pessoas que desejam novamente ter uma “boca cheia de dentes”. Um deles utiliza farelo de osso bovino, e é chamado de enxerto exógeno. Outra opção é o enxerto autógeno, que provém de ossos humanos, dos próprios pacientes ou não.
O procedimento utilizando o osso bovino é feito por meio da inserção de farelo do osso do animal sob a gengiva, para estimular a criação de uma nova estrutura óssea, e esse farelo de osso provém de um novilho. “O enxerto bovino ou Xenógeno é muito utilizado em casos de levantamento de seio e quando precisamos cobrir algum implante que ficou exposto por falta de osso, mas em apenas algumas faces” afirma a cirurgiã - dentista Amarilis Maria Ribeiro. “É um osso particulado ou em bloco, que é tirado do fêmur ou tíbia do animal jovem”, completa a dentista.
Diferentemente de alguns procedimentos que inserem corpos diferentes dentro do organismo, como no caso de transplante de órgãos, é muito raro o risco de que haja rejeição. Segundo Amarilis, “o osso enxertado é apenas um indutor que estimula as células a formarem mais osso. O enxerto dar certo ou não, varia de acordo com o organismo de cada paciente, mas no geral não há rejeição a esse processo”.
A dona de casa Maria Gorete Pereira, 56 anos, passou por esse procedimento há cerca de 4 anos e conta que ficou um pouco com o “pé atrás” quando o dentista disse a ela como seria a cirurgia, mas que no final deu tudo certo. “É estranho você ouvir que vão colocar um osso de um animal na sua boca”, afirma Maria. “Mas no final o dentista me explicou tudo e que era supernormal esse tipo de procedimento. Ainda bem que deu tudo certo e conseguimos fazer o implante”, finalizou a dona de casa.
Contudo, esse procedimento não é indicado para todos os casos de reabsorção óssea sob a gengiva. “O enxerto bovino é indicado apenas em casos de levantamento de seio e preenchimentos pequenos de falhas ósseas”, afirma Amarilis. Em casos de reabsorções maiores, os dentistas têm de utilizar pedaços maiores de osso, e nesses casos são usados ossos humanos, o que é chamado de enxerto autógeno.
Esse outro tipo de implante pode ser um pouco mais invasivo, porque é necessário que seja retirado um pedaço de osso de outra parte do corpo da pessoa para, posteriormente, poder implantá-lo na boca do paciente. Esse pedaço de osso pode vir da própria boca ou de outras partes do corpo, como do crânio, das costelas, da tíbia ou da bacia.
De acordo com o cirurgião-dentista Antonio Bifulco, “quando o osso provém da boca, é o próprio dentista quem faz a cirurgia, mas quando ele vem de outras partes do corpo é necessário que um ortopedista seja chamado para que, dentro de um ambiente hospitalar, faça o procedimento para retirar um pedaço de osso”.
Caso o paciente queira evitar mais uma operação, o osso que será enxertado pode ser conseguido em um banco de ossos, que é um lugar para onde vão os tecidos ósseos retirados de pacientes que fazem implantes de próteses na cabeça do fêmur, por exemplo, e lá ficam para serem doados para pacientes que deles necessitam, como as pessoas que buscam implantes dentários.
Na opinião do cirurgião-dentista Antonio, o enxerto autógeno com o próprio osso do paciente é a melhor escolha tanto para o dentista, como para o paciente, porque “não existe nenhum risco de rejeição, mas há grandes chances de que em vez de formar um novo osso, o que colocamos pode ser, também, absorvido pelo corpo. Por isso quanto menos estranho o corpo enxertado melhor”. Antonio ainda completa dizendo que “mesmo o osso do paciente não é uma garantia de sucesso, mas atualmente o enxerto antes do implante é a única opção para quem deseja voltar a ter os dentes e não tem uma estrutura óssea suficiente no local onde serão colocados os pinos”.
Após feito o enxerto, o tempo para a formação de uma nova estrutura óssea no local pode demorar entre 6 e 9 meses. Segundo Antonio Bifulco, não há um estudo que comprove uma maior eficácia do enxerto autógeno, mas pela sua experiência, ele costuma ser mais rápido e mais eficiente que o enxerto que utiliza o osso bovino.
Para esses casos, são indicados os procedimentos de enxerto ósseo na região sob a gengiva, exatamente no lugar onde ocorreu a reabsorção, para que seja estimulada a formação de uma nova estrutura de osso que possa comportar um implante dentário.
Atualmente, existem dois tipos de enxertos que são indicados para as pessoas que desejam novamente ter uma “boca cheia de dentes”. Um deles utiliza farelo de osso bovino, e é chamado de enxerto exógeno. Outra opção é o enxerto autógeno, que provém de ossos humanos, dos próprios pacientes ou não.
O procedimento utilizando o osso bovino é feito por meio da inserção de farelo do osso do animal sob a gengiva, para estimular a criação de uma nova estrutura óssea, e esse farelo de osso provém de um novilho. “O enxerto bovino ou Xenógeno é muito utilizado em casos de levantamento de seio e quando precisamos cobrir algum implante que ficou exposto por falta de osso, mas em apenas algumas faces” afirma a cirurgiã - dentista Amarilis Maria Ribeiro. “É um osso particulado ou em bloco, que é tirado do fêmur ou tíbia do animal jovem”, completa a dentista.
Diferentemente de alguns procedimentos que inserem corpos diferentes dentro do organismo, como no caso de transplante de órgãos, é muito raro o risco de que haja rejeição. Segundo Amarilis, “o osso enxertado é apenas um indutor que estimula as células a formarem mais osso. O enxerto dar certo ou não, varia de acordo com o organismo de cada paciente, mas no geral não há rejeição a esse processo”.
A dona de casa Maria Gorete Pereira, 56 anos, passou por esse procedimento há cerca de 4 anos e conta que ficou um pouco com o “pé atrás” quando o dentista disse a ela como seria a cirurgia, mas que no final deu tudo certo. “É estranho você ouvir que vão colocar um osso de um animal na sua boca”, afirma Maria. “Mas no final o dentista me explicou tudo e que era supernormal esse tipo de procedimento. Ainda bem que deu tudo certo e conseguimos fazer o implante”, finalizou a dona de casa.
Contudo, esse procedimento não é indicado para todos os casos de reabsorção óssea sob a gengiva. “O enxerto bovino é indicado apenas em casos de levantamento de seio e preenchimentos pequenos de falhas ósseas”, afirma Amarilis. Em casos de reabsorções maiores, os dentistas têm de utilizar pedaços maiores de osso, e nesses casos são usados ossos humanos, o que é chamado de enxerto autógeno.
Esse outro tipo de implante pode ser um pouco mais invasivo, porque é necessário que seja retirado um pedaço de osso de outra parte do corpo da pessoa para, posteriormente, poder implantá-lo na boca do paciente. Esse pedaço de osso pode vir da própria boca ou de outras partes do corpo, como do crânio, das costelas, da tíbia ou da bacia.
De acordo com o cirurgião-dentista Antonio Bifulco, “quando o osso provém da boca, é o próprio dentista quem faz a cirurgia, mas quando ele vem de outras partes do corpo é necessário que um ortopedista seja chamado para que, dentro de um ambiente hospitalar, faça o procedimento para retirar um pedaço de osso”.
Caso o paciente queira evitar mais uma operação, o osso que será enxertado pode ser conseguido em um banco de ossos, que é um lugar para onde vão os tecidos ósseos retirados de pacientes que fazem implantes de próteses na cabeça do fêmur, por exemplo, e lá ficam para serem doados para pacientes que deles necessitam, como as pessoas que buscam implantes dentários.
Na opinião do cirurgião-dentista Antonio, o enxerto autógeno com o próprio osso do paciente é a melhor escolha tanto para o dentista, como para o paciente, porque “não existe nenhum risco de rejeição, mas há grandes chances de que em vez de formar um novo osso, o que colocamos pode ser, também, absorvido pelo corpo. Por isso quanto menos estranho o corpo enxertado melhor”. Antonio ainda completa dizendo que “mesmo o osso do paciente não é uma garantia de sucesso, mas atualmente o enxerto antes do implante é a única opção para quem deseja voltar a ter os dentes e não tem uma estrutura óssea suficiente no local onde serão colocados os pinos”.
Após feito o enxerto, o tempo para a formação de uma nova estrutura óssea no local pode demorar entre 6 e 9 meses. Segundo Antonio Bifulco, não há um estudo que comprove uma maior eficácia do enxerto autógeno, mas pela sua experiência, ele costuma ser mais rápido e mais eficiente que o enxerto que utiliza o osso bovino.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Aprendendo a fazer jornalismo
Num primeiro momento, pode parecer estranho dizer que os jornalistas e os veículos de comunicação, até mesmo os mais tradicionais, como a Veja e o The New York Times, terão de aprender a fazer jornalismo. Não será discutido aqui se determinado veículo faz mal seu trabalho e deve se reestruturar. Tudo bem, alguns deveriam, mas isso não vem ao caso especificamente nessa publicação.
A questão que envolve o reaprendizado do jornalismo está ligado ao surgimento de novas tecnologias que não permitem o simples ato de transferir o que já é feito no jornalismo impresso ou até mesmo no jornalismo Web para a plataforma de Ipads e Kindles.
Alex Primo, discute no vídeo ‘Jornalismo para Ipad e Kindle’ como vários veículos brasileiros e internacionais estão criando seu conteúdo para essa nova plataforma e, analisando o que é dito por ele, percebe-se que ainda ninguém sabe ao certo como fazer esse jornalismo. Ainda não há um padrão ‘de sucesso’ a ser seguido.
Vemos que os exemplos dados por Alex vão desde a simples transferência do que é produzido no impresso até à criação de uma mentalidade nova de conteúdo para um meio que é mais interativo que um simples pedaço de papel que será usado pelo cachorro da família poucas horas após ser lido.
O que Alex defende eu seu vídeo são essas publicações que se utilizam de várias ferramentas que tornam a reportagem mais interativa e permitem que o leitor ‘brinque’ com o conteúdo que está em suas mãos. De certo modo, os usuário é quem comanda o caminho que deseja seguir para entender sobre o assunto.
Contudo, Alex se esquece de tocar em um ponto importante que talvez seja uma saída mais elaborada e completa que deixaria poucas lacunas a serem preenchidas tanto para o aprendizado dos leitores sobre determinado assunto, quanto para veículo de comunicação que tornariam suas publicações mais versáteis e com uma maior gama de acessos.
Percebe-se que alguns veículos estão um pouco perdidos e, talvez, até um pouco receosos quanto ao futuro do jornalismo. Como Alex disse em seu vídeo, os veículos precisam se adequar às novas tecnologias. O ‘The Telegraph’, por exemplo, preferiu ordenar que seus jornalistas tweetem pelo menos duas vezes por dia. Isso é necessário, mas não uma solução para salvar os jornais.
A melhor saída para o jornalismo para Ipads e Kindles talvez seja fazer uma abordagem em conjunto com as antigas mídias, como o impresso e o vídeo. Como exemplo, pode-se citar uma publicação sobre a Copa do Mundo na Folha de São Paulo falando sobre os estádios que estão sendo construídos.
No Ipad, o leitor poderia ver uma linha do tempo com datas marcantes da construção com uma foto de como o estádio estava naquela data acompanhado de uma breve descrição, que no final levaria para um outro link que mostrasse a construção da obra em tempo real.
Ainda há espaço para inserir uma publicação em formato de rádio ou para alguma rede social, mas o exemplo serve para expor que o usuário pode começar por qualquer uma das três plataformas e provavelmente irá querer acessar o que está na outra publicação, pois não se tratará de três conteúdos repetidos, mas sim publicações complementares que ajudariam o leitor e renderiam mais acessos para o veículo e mais publicidade, já que existiriam mais lugares para anúncios.
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
Chernobyl ainda exala
Em 1986 a Cortina de Ferro imposta pela União Soviética ainda era um muro alto e maciço. Os que viviam à sua sombra muitas vezes eram obrigados a viver com a negligência dos ‘Czares’ soviéticos que não queriam deixar nada de errado em seu regime ser exposto ao rival mundo capitalista.
No dia 26 de abril de 1986 uma cidade ucraniana amanheceu com uma nuvem de radioativa sobre sua cabeça. Ali começava o pior acidente nuclear da história da humanidade: o Desastre de Chernobyl.
Inicialmente, operadores da usina queriam fazer um teste para avaliar como um dos reatores reagia quando utilizado com baixos níveis de energia. Contudo, por despreparo ou erro do próprio maquinário, o sistema hidráulico de resfriamento falhou e, consequentemente, um superaquecimento irreversível tomou conta do reator quatro.
A explosão liberou na atmosfera material radioativo em quantidades letais que logo se dispersaram por grande parte da Europa. Para fazer um comparativo, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki liberaram, aproximadamente, uma radiação quatrocentas vezes menor que a da usina de Chernobyl.
Assim que tomou conhecimento dos fatos, o governo Soviético organizou um mutirão com mais de 500 mil trabalhadores, muitos deles civis, para fazer a limpeza do material radioativo na região e auxiliar na retirada imediata de aproximadamente 50 mil pessoas. Helicópteros também foram enviados ao centro da explosão para tentar controlar as chamas despejando areia e chumbo sobre elas.
Após o acidente, especialistas diagnosticaram que faltava uma maior estrutura de segurança para a usina de Chernobyl. Estruturas de cimento e aço eram inexistentes no local, e só foram construídas depois que o mal já estava feito e a nuvem radioativa se espalhava rapidamente por toda a região graças ao clima úmido e chuvoso.
O reator era rico em Césio-137, e mudou para sempre a vida de quem morava nas proximidades da usina. Mesmo após 25 anos do acidente, a população atingida e seus descendentes sofrem de enfermidades como cânceres e anomalias genéticas.
Um estudo realizado pela Universidade da Carolina do Sul, com a colaboração de biólogos e cientistas consagrados, atestou que Chernobyl ainda é perigo para o meio ambiente. São 25 anos que separam o desastre da agricultura e vida selvagem atual, mas de acordo com o biólogo Tim Mousseau, Chernobyl definitivamente não é o paraíso para a vida selvagem. A radiotividade ainda afeta zonas rurais do nordeste ucraniano, onde camponeses fazem plantações ilegais de cogumelos e grãos para se sustentarem. O índice radioativo da região baixou nos últimos 25 anos, mas as regiões mais críticas ainda apresentam contaminação em até 20 centímetros abaixo do solo. A contaminação ocorre com a passagem das partículas radioativas do solo para as plantas por meio das raízes, e animais e humanos podem contaminar-se através do alimento ingerido. Se absorvido pelos ossos e órgãos, o Césio-137 danifica o DNA e aumenta o risco de células mutantes que podem vir a tornarem-se tumores.
Cerca de 2.2 milhões de pessoas ainda sofrem com cânceres e outras doenças contraídas por causa da catástrofe. Todos são sobreviventes do acidente ucraniano, que acabou com a cidade de Pripyat. O município foi construído especialmente para abrigar os trabalhadores da usina de Chernobyl, e hoje é uma cidade-fantasma, repleta de marcas da tragédia.
Na cidade abandonada de Pripyat, construções ainda guardam os símbolos do regime soviético, um parque de diversões que nunca foi inaugurado permanece intacto e escolas vazias ainda conservam máscaras de proteção usadas pelos alunos após o acidente.
Cerca de 100 quilômetros do epicentro do desastre, uma pequena criança que no futuro se transformaria no melhor jogador de futebol do mundo em uma temporada era obrigado a abandonar sua casa junto com sua família. O pequeno Andriy Shevchenko, que anos mais tarde jogaria nos poderosos Milan e Chelsea, aos nove anos já sabia o que é ser um refugiado nuclear. E mesmo após tantos anos o medo e as lembranças ainda o perseguem. “Deixou-me transtornado. A mim, à minha família, a todos os meus amigos”, revelou o jogador que atualmente defende o Dínamo de Kiev em uma entrevista coletiva.
No dia 26 de abril de 2011, a ONU (Organização das Nações Unidas) prestou uma homenagem às vítimas pelos 25 anos do acidente. “O aniversário de Chernobyl é uma ocasião para lembrar do custo humano do desastre, como também para fazer um balanço dos problemas persistentes”, declarou a Embaixadora da Nicarágua e Presidente interina da Assembléia Geral, Maria Rubiales de Chamorro.
Na exposição de fotos em Nova York sobre o acidente, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon garantiu que manterá a questão da segurança nuclear na pauta Internacional. “Ao trabalhar para garantir que a energia nuclear seja utilizada de maneira pacífica e segura, estaremos honrando a memória das vítimas de Chernobyl e de seu heróis”, disse.
No dia 26 de abril de 1986 uma cidade ucraniana amanheceu com uma nuvem de radioativa sobre sua cabeça. Ali começava o pior acidente nuclear da história da humanidade: o Desastre de Chernobyl.
Inicialmente, operadores da usina queriam fazer um teste para avaliar como um dos reatores reagia quando utilizado com baixos níveis de energia. Contudo, por despreparo ou erro do próprio maquinário, o sistema hidráulico de resfriamento falhou e, consequentemente, um superaquecimento irreversível tomou conta do reator quatro.
A explosão liberou na atmosfera material radioativo em quantidades letais que logo se dispersaram por grande parte da Europa. Para fazer um comparativo, as bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki liberaram, aproximadamente, uma radiação quatrocentas vezes menor que a da usina de Chernobyl.
Assim que tomou conhecimento dos fatos, o governo Soviético organizou um mutirão com mais de 500 mil trabalhadores, muitos deles civis, para fazer a limpeza do material radioativo na região e auxiliar na retirada imediata de aproximadamente 50 mil pessoas. Helicópteros também foram enviados ao centro da explosão para tentar controlar as chamas despejando areia e chumbo sobre elas.
Após o acidente, especialistas diagnosticaram que faltava uma maior estrutura de segurança para a usina de Chernobyl. Estruturas de cimento e aço eram inexistentes no local, e só foram construídas depois que o mal já estava feito e a nuvem radioativa se espalhava rapidamente por toda a região graças ao clima úmido e chuvoso.
O reator era rico em Césio-137, e mudou para sempre a vida de quem morava nas proximidades da usina. Mesmo após 25 anos do acidente, a população atingida e seus descendentes sofrem de enfermidades como cânceres e anomalias genéticas.
Um estudo realizado pela Universidade da Carolina do Sul, com a colaboração de biólogos e cientistas consagrados, atestou que Chernobyl ainda é perigo para o meio ambiente. São 25 anos que separam o desastre da agricultura e vida selvagem atual, mas de acordo com o biólogo Tim Mousseau, Chernobyl definitivamente não é o paraíso para a vida selvagem. A radiotividade ainda afeta zonas rurais do nordeste ucraniano, onde camponeses fazem plantações ilegais de cogumelos e grãos para se sustentarem. O índice radioativo da região baixou nos últimos 25 anos, mas as regiões mais críticas ainda apresentam contaminação em até 20 centímetros abaixo do solo. A contaminação ocorre com a passagem das partículas radioativas do solo para as plantas por meio das raízes, e animais e humanos podem contaminar-se através do alimento ingerido. Se absorvido pelos ossos e órgãos, o Césio-137 danifica o DNA e aumenta o risco de células mutantes que podem vir a tornarem-se tumores.
Cerca de 2.2 milhões de pessoas ainda sofrem com cânceres e outras doenças contraídas por causa da catástrofe. Todos são sobreviventes do acidente ucraniano, que acabou com a cidade de Pripyat. O município foi construído especialmente para abrigar os trabalhadores da usina de Chernobyl, e hoje é uma cidade-fantasma, repleta de marcas da tragédia.
Na cidade abandonada de Pripyat, construções ainda guardam os símbolos do regime soviético, um parque de diversões que nunca foi inaugurado permanece intacto e escolas vazias ainda conservam máscaras de proteção usadas pelos alunos após o acidente.
Cerca de 100 quilômetros do epicentro do desastre, uma pequena criança que no futuro se transformaria no melhor jogador de futebol do mundo em uma temporada era obrigado a abandonar sua casa junto com sua família. O pequeno Andriy Shevchenko, que anos mais tarde jogaria nos poderosos Milan e Chelsea, aos nove anos já sabia o que é ser um refugiado nuclear. E mesmo após tantos anos o medo e as lembranças ainda o perseguem. “Deixou-me transtornado. A mim, à minha família, a todos os meus amigos”, revelou o jogador que atualmente defende o Dínamo de Kiev em uma entrevista coletiva.
No dia 26 de abril de 2011, a ONU (Organização das Nações Unidas) prestou uma homenagem às vítimas pelos 25 anos do acidente. “O aniversário de Chernobyl é uma ocasião para lembrar do custo humano do desastre, como também para fazer um balanço dos problemas persistentes”, declarou a Embaixadora da Nicarágua e Presidente interina da Assembléia Geral, Maria Rubiales de Chamorro.
Na exposição de fotos em Nova York sobre o acidente, o Secretário-Geral da ONU, Ban Ki-moon garantiu que manterá a questão da segurança nuclear na pauta Internacional. “Ao trabalhar para garantir que a energia nuclear seja utilizada de maneira pacífica e segura, estaremos honrando a memória das vítimas de Chernobyl e de seu heróis”, disse.
domingo, 2 de novembro de 2014
Voto por não votar, se quiser
A cada dois anos os brasileiros acordam num domingo de manhã para praticar o maior dever cívico que uma democracia pode disponibilizar ao seu povo: o voto.
Domingo por natureza é um dia que deveria ser dedicado inteiramente ao ócio da recuperação carnal depois uma longa semana de seis dias dedicados à estressante rotina de trabalho, estudos ou qualquer coisa que, mesmo insignificante, não nos deixe usufruir de um leve e necessário estado de “vadiagem”.
Contudo, o direito ao descanso merecido e, principalmente, a democracia são feridos em todos os processos eleitorais do Brasil; afinal, não é nem um pouco democrático obrigar o cidadão a sair de casa para enfrentar as filas das votações.
Os defensores do voto obrigatório expõem algumas ideias que dizem que em países onde o voto não é obrigatório a população perde o interesse pela política e , consequentemente, seria mais fácil que um candidato com ideais questionáveis e pouco preparado conseguisse chegar às esferas de poder.
Acreditando cegamente numa afirmação destas, com certeza em terreno tupiniquim não existiria este tipo problema, pois aqui, todos os cidadãos maiores de 18 e com menos de 65 anos são obrigados a comparecer às urnas.
O Brasil não deveria ter problemas quanto a políticos chegando ao poder sem nem mesmo ter uma única proposta. Neste mundo ideal e irreal, pessoas como Tiririca e Frank Aguiar também jamais teriam sido concebidos nem em vida e muito menos politicamente.
A falta de preparo do povo na hora da escolha dos candidatos é exatamente o resultado do trabalho mal feito por aqueles que nos representam em Brasília.
No Brasil não há uma educação política, e talvez por isso as pessoas esperem que algum candidato conte a estes ”analfabetos políticos” (e não políticos analfabetos, neste caso) o que faz um deputado quando ele chegar lá.
Um pequeno número de votos conscientes é mais precioso que milhões de outros que, por assim dizer, são jogados na lata do lixo. Sendo que esta lata de lixo é o nosso sistema de saúde, nossa educação e etc., etc. e etc.
Política se faz com pessoas com interesse em melhorar e fazer funcionar a grande engrenagem de um país. Se quem vota já não tem está motivado por seus próprios direitos, tudo está errado desde o princípio.
Domingo por natureza é um dia que deveria ser dedicado inteiramente ao ócio da recuperação carnal depois uma longa semana de seis dias dedicados à estressante rotina de trabalho, estudos ou qualquer coisa que, mesmo insignificante, não nos deixe usufruir de um leve e necessário estado de “vadiagem”.
Contudo, o direito ao descanso merecido e, principalmente, a democracia são feridos em todos os processos eleitorais do Brasil; afinal, não é nem um pouco democrático obrigar o cidadão a sair de casa para enfrentar as filas das votações.
Os defensores do voto obrigatório expõem algumas ideias que dizem que em países onde o voto não é obrigatório a população perde o interesse pela política e , consequentemente, seria mais fácil que um candidato com ideais questionáveis e pouco preparado conseguisse chegar às esferas de poder.
Acreditando cegamente numa afirmação destas, com certeza em terreno tupiniquim não existiria este tipo problema, pois aqui, todos os cidadãos maiores de 18 e com menos de 65 anos são obrigados a comparecer às urnas.
O Brasil não deveria ter problemas quanto a políticos chegando ao poder sem nem mesmo ter uma única proposta. Neste mundo ideal e irreal, pessoas como Tiririca e Frank Aguiar também jamais teriam sido concebidos nem em vida e muito menos politicamente.
A falta de preparo do povo na hora da escolha dos candidatos é exatamente o resultado do trabalho mal feito por aqueles que nos representam em Brasília.
No Brasil não há uma educação política, e talvez por isso as pessoas esperem que algum candidato conte a estes ”analfabetos políticos” (e não políticos analfabetos, neste caso) o que faz um deputado quando ele chegar lá.
Um pequeno número de votos conscientes é mais precioso que milhões de outros que, por assim dizer, são jogados na lata do lixo. Sendo que esta lata de lixo é o nosso sistema de saúde, nossa educação e etc., etc. e etc.
Política se faz com pessoas com interesse em melhorar e fazer funcionar a grande engrenagem de um país. Se quem vota já não tem está motivado por seus próprios direitos, tudo está errado desde o princípio.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Nobreza banguela
No alvorecer do dia 12 de junho de 2014 as verdejantes selvas brasileiras estarão no alto do Olimpo chorando ao lembrar-se da desgraça de sua desnecessária degola. Na terra dos mortais, a mulata terá uma bala de ‘três oitão’ transfixada por suas pomposas nádegas, enquanto no meio do ‘sambão’ da abertura da Copa crianças são usadas para voar como aviões.
Nada que não se resolva com uma maquiagem de alegria com sorrisos desdentados e um pandeiro girando no alto do dedo médio. Não se preocupe, caro leitor, pois em pouco mais de um mês estaremos finalmente inseridos no primeiro mundo. Eu serei o lorde da Vila Ré, e me juntarei à marquesa do Capão Redondo e ao Duque do Tremembé para assistir ao fantasma do legado provido por nossos bolsos.
Quando saio de meu palacete, vez ou outra viajo para o local onde um primo rico construiu uma moradia de mais de um bilhão de reais, mas não entendo o porquê de a favela da plebe, que fica exatamente na frente, continuar lá; mais imponente que o próprio Castelo de Itaquera. Terá me faltado educação ou os reis do dia 12 de junho são míopes?
“Nada disso me importa”. “Isso é uma vergonha”. “Agora nossa vida melhorará”. “Só estão fazendo isso para me roubar”. Acho que estou um pouco bipolar... Eu, o brasileiro, estou numa bipolaridade social, envolto a um redemoinho de mentiras no momento em que vivo a verdadeira realidade.
Mas agora é hora de respirar fundo esse ar cheio de poluição e agradecer a São Blatter, que estais na Suíça, pela graça concedida ao meu nobilíssimo povo. Minha única preocupação é se faltar um pivô na seleção. Na minha boca, ok.
Para os cavaleiros do apocalipse fica o meu beijinho no ombro. Vocês falam das desgraças como se vacas voassem, e se esquecem que por aqui, atualmente, só voam vasos sanitários.
Atenciosamente,
Nobre banguela
*** Crônica produzida para o curso de Jornalismo Cultural do Senac.
Atemporalidade brasillis
Pés maltrapilhos que se direcionam da aridez até um oásis de florestas de pedra em busca da graça almejada, e enfrentam, ao final de sua jornada, a dificuldade de entender um mundo culturalmente próximo, mas que a distância geográfica moldou como se a própria mão de Darwin estivesse ali para submeter aqueles menos adaptados.
Com exceção ao diálogo entre os personagens, típico de épocas já passadas, e à hoje pouco usual moda de usar ternos e gravatas fora dos casamentos, o filme ‘O pagador de promessas’ (1962) consegue exprimir muito do que é a sociedade brasileira do século XXI, com todas as suas superstições, problemas e soluções efêmeras.
Contudo, antes de abordar as peculiaridades do ‘Brasil de sempre’, vale a menção ao diretor Anselmo Duarte; visto que ele conseguiu produzir o filme de uma hora e meia quase inteiramente em uma escadaria de igreja, sem precisar de imagens coloridas para prender a atenção do expectador. O preto e o branco e os poucos recursos de câmera deixam os olhos mais voltados para o enredo e às emoções dos personagens.
Pobre Zé do Burro. Um Zé sem muitas perspectivas que adentrou no mundo de outros Zés que não aceitavam sua preferência por ser apenas o que ele gostava de ser: um simples Zé que direcionava sua vida por suas convicções, não por ideologias.
Tal como vemos hoje. Extrema esquerda: “leva um presidiário para sua casa, então...”. Esquerda: “Como é discutir isso comendo caviar na sua cobertura?”. Direita: “Você paga seus impostos para a melhoria de sua cidade!”. Extrema direita: “Se você pensa assim, por que não voltar para a ditadura de uma vez?”. Centro: “Sem opinião!”. Não basta pensar aquilo que deseja pensar, tem que estar sempre de mãos dadas, caminhando e cantando, com uma causa maior.
O filme, que há dois anos completou suas bodas de ouro, se passa na Bahia e mostra muito bem a amálgama entre as culturas religiosas dos povos brasileiros. Na trama, Zé do Burro faz uma promessa num terreiro de candomblé e tenta pagá-la numa igreja católica. Obviamente isso não é bem visto pelo padre-general da paróquia que, em pleno Pelourinho, vira as costas para a cultura africana; dos negros; dos brasileiros.
Perante a negativa do padre-general, a história do simples agricultor que percorreu sete léguas levando uma cruz de madeira nas costas para cumprir uma promessa pela cura de um burro viaja até os ouvidos sempre atentos de uma redação de jornal. Um pretendente a mártir estava ganhando forma nas escadarias da igreja de Santa Bárbara.
Nesse momento do filme é um pouco inevitável pensar em alguns casos do nosso jornalismo, em que, muitas vezes, a maior bandeira é a amplificação do fato real. Sem se importar muito com a apuração para se chegar à veracidade dos fatos, vide o que aprendemos na ‘Escola Base’ e o que ingerimos com o ‘Boimate’.
E nesse meio tempo, quando todos os olhos da polícia e outras autoridades estão voltados para a punição dos possíveis defloradores da moral apontados pela imprensa, pessoas são arrastadas para dentro de covis onde o mundo parece melhor do que aquele em que elas enfrentam todos os dias quando o sol nasce e são obrigadas levantar os olhos perante a sua realidade.
Uma sociedade de poucos com muito e muitos com pouco sempre gerará desvios de moral, mesmo que sejam para conseguir apenas um átimo da verdadeira realidade que tal infração traga. Um relógio roubado nunca tornará um ladrão residente de um bairro nobre, assim como uma cerca elétrica não impede arrombamentos.
E em meio ao caos de depravações, criam-se mártires para morrer pela causa de outros. No momento em que Zé do Burro é morto, e pela primeira vez na trama é filmado de cima para baixo, pois somente naquele momento ele havia de fato se tornado uma pessoa importante, impossível não se lembrar de Amarildo, DG, Da Leste.
Criminosos de fato ou injustiçados nunca saberemos. São apenas alguns Zés que tiveram o azar de cair em dos atemporais problemas de nossa sociedade.
*** Artigo produzido para o curdo de Jornalismo Cultural do Senac.
sábado, 12 de abril de 2014
Planejamento urbano e suas repercussões
A região metropolitana de São Paulo corresponde à uma área que abriga 39 municípios do Estado. Com pouco mais de 20 milhões de habitantes, esta região representa um dos pólos mais importantes do país em termos de população e economia. Porém, o que muitos não veem é a luta das cidades periféricas para acompanhar este avanço da região metropolitana.
Estas cidades-satélites sofrem com o processo natural de conurbação pela qual são submetidas e os reflexos deste processo muitas vezes são vistos apenas por aqueles que lá residem ou habitam.
O crescente avanço demográfico da região metropolitana de São Paulo caracteriza a maior megalópole do país, crescendo cerca de 19 milhões desde a década de 1940 (IBGE- cidades - http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 ). Porém as mudanças não são apenas populacionais, mas também de infra-estrutura e responsabilidade governamental, uma vez que quase quarenta cidades estão envolvidas no processo.
Ao ser perguntado sobre o processo de conurbação, suas causas e consequências, Ernesto Salazar, mestrando em economia política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que pesquisa a expansão desenfreada de malhas urbanas, não apenas no Brasil, mas em outros casos como Cidade do México e Bombaim, defende que existem dois movimentos importantes: o primeiro é o do crescimento populacional dessas cidades, motivado tanto pela vinda de gente qu busca novas oportunidades econômicas em atividades diretamente ligadas à cidade de São Paulo. O outro movimento importante é o de expulsão da população pobre, que se vê impossibilitada de morar perto das regiões centrais, ainda que siga dependendo economicamente de atividades nessa região.
Com esses movimentos, as classes mais baixas da sociedade se veem cada vez mais marginalizadas e excluidas, exaltando a ironia de que quanto mais a cidade cresce, mais pessoas são afastadas e menos pessoas controlam os órgãos responsáveis em mudar este cenário. “Isso amplifica os problemas já existentes de infra estrutura da cidade, com dois agravantes: o primeiro é a própria extensão que tem implicações sobre gerência, e torna a questão de mobilidade urbana que não cabe no escopo de ação de uma prefeitura e leva ao crescimento de cidades sem qualquer base fiscal para que possam ser feitas políticas públicas, uma vez que estas se tornam cidades dormitório para atividades que de fato geram renda no município de São Paulo.” – continua Salazar.
É lógico que o enorme contingente populacional faz com que essas cidades tenham dinamismo próprio, mas em um planejamento integrado de desenvolvimento regional, a tendência a expansão da malha urbana sempre seguirá um padrão de agravamento dos problemas urbanos de São Paulo.
Devido ao avanço da malha urbana, o governo do Estado aprimorou as vias que compoem a região metropolitana, afim de facilitar os processos migratórios diários pelo qual o paulistano que não mora na capital é obrigado a efetuar. O anel viário que cerca a região metropolitana (Rodoanel) complementa o vasto número de acessos à capital, porém sua realização demorou cerca de 50 anos para acontecer e agora atende a mais gente do que era previsto na sua criação (1950). Mario Covas, em 1998 tirou do papel o projeto, que visa evitar a passagem de caminhões, carros e ônibus por dentro das vias marginais da capital (Tietê e Pinheiros).
Recentemente foi criado pelo Governador Geraldo Alckmin a Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano, que visa o melhoramento e desenvolvimento da região Metropolitana de São Paulo. De acordo com o secretário atual, Edson Aparecido, serão feitas cinco audiências com os 39 municípios, que serão ouvidos para a conclusão dos planos. “A Região Metropolitana de São Paulo terá um instrumento moderno e contemporâneo de integração e planejamento para a solução dos problemas metropolitanos”, afirma Edson.
A Secretaria foi criada devido à discrepância que existe entre a capital e os demais municípios no entorno da cidade. Em uma das cinco audiências, a prefeita de Juquitiba desabafou e dizendo que em sua cidade “apenas 13% do esgoto é tratado”.
Já o arquiteto Alberto Yun, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e responsável por processos de fiscalização da imobiliária Lopes também frisa que os problemas de planejamento são os mais cruciais quando se trata do assunto – “A primeira coisa que vem a mente é a desorganizacao da cidade em si.” Sem este planejamento, a construção e expansão da região se dá de uma maneira desordenada, uma das principais causas de problemas infraestruturais da cidade. Ao contrário da capital francesa Paris, onde as ruas convergem em direção ao marco zero da cidade (Arco do Triunfo), a região metropolitana de São Paulo não segue padrões pré-planejados de ocupação, o que gera uma total displicência na escolha da região para se habitar. Inundações, deslizamentos de terra e saneamento mal distribuido são consequências dessa ocupação despreocupada, tanto por parte do governo quanto por parte da população.”Tendo esse planejamento previo é mais facil de organizar tudo, inclusive os esgostos. Através desse planejamento seria possível fazer um estudo das condições do solo, o que facilitaria no sucesso da implementação de saneamento básico, fornecimento de água e eletricidade, barateando custos e diminuindo prazos.” - completa Alberto.
Os problemas de infra-estrutura causam reflexos na sociedade, que é obrigada a uma adaptação logística. Instituições básicas como escolas e hospitais públicos são as maiores procupações dos moradores e trabalhadores da região. Washington Luiz Correia é um médico nascido no Rio Grande do Norte, formado pela USP (Universidade São Paulo) e dono de uma clínica de hemodiálise na cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Por suas várias contribuições à cidade, como a abertura de sua clínica que atende pessoas carentes pelo SUS, em 2007 recebeu o título de “Cidadão Osasquense”.
De acordo com o Dr. Washington, o município com pouco menos de 700 mil habitantes tem mais carências que a capital paulista. “Na área de saúde e de estrutura social Osasco está muito para trás; até culturalmente estamos para trás. A parte de favela de Osasco é muito precária, há muitas carências e pouco trabalho social. Só estamos com o trânsito é melhor”, conta o médico.
“Já exigi muitas mudanças onde eu tenho conhecimento, principalmente na área de saúde, pelo fato de eu ser médico. Mas por Osasco ser um reduto genuinamente petista e o governo Estadual ser do PSDB, é muito difícil negociar acordos e mudanças”, desabafa Washington.
Para os moradores da cidade, Osasco cresceu muito nos últimos anos, mas a estrutura não acompanhou o ritmo acelerado. “Aqui falta segurança, infra-estrutura e principalmente melhorias na saúde. Não estudo na cidade, portanto não posso falar sobre a educação”, conta a estudante de publicidade Juliana do Amaral, 22 anos. ”Mas o pior são as pessoas que moram em condomínios de luxo de Osasco e dizem que moram em São Paulo. Se os moradores não têm amor pela cidade porque os governantes deveriam ter?” questiona a estudante.
A linha férrea do metrô paulistano é, aproximadamente, quatro vezes menor que de suas cidades-irmãs, como Londres e Nova York. Atualmente, ela cobre poucos espaços da capital, e não há previsão de que o metrô chegue às regiões metropolitanas de São Paulo. “Quando eu estudava a noite era um martírio. Tinha que pegar um metrô e um trem e levava mais de uma hora para chegar em casa. Saia do cursinho onze e meia e só chegava por volta da uma da madrugada”, conta Juliana. “E ainda se somarmos com a falta de segurança da cidade dá para se ter uma idéia de como é precária a vida de quem depende de transporte público para chegar a Osasco”, completa a estudante.
Outras cidades, como Jundiaí, não sofrem tanto com problemas de infra-estrutura, mas ainda assim, se comparado a São Paulo, está aquém do esperado pela população. “Por mais que Jundiaí tenha se tornado uma cidade grande e, sim, apresente uma boa infra-estrutura, ainda há exemplos de falhas. Como por exemplo o Projeto SESC (Serviço Social do Comércio), que existe há anos em São Paulo e somente este ano foi criado em alguns pontos de Jundiaí”, relata a empresária Marlene Zanini Frattini, 50 anos.
“Graças a Deus tenho a condição de ir procurar em outras cidades, como Campinas e São Paulo, o que falta em Jundiaí, mas a maior parte da população está sujeita a condições que não seriam as ideais. Falta uma melhor estrutura de hospitais, escolas, tanto públicas quanto técnicas, áreas de lazer, etc”, conta Marlene.
Outro grande problema deste rápido avanço da malha urbana é marginalização não apenas de terrítórios, mas de comunidades e pessoas. Ao ser perguntada porque existe essa marginalização, Karina Suzuki, especialista em planejamento urbano da construtora Cyrela, responde: “A região metropolitana reúne oportunidades e prestações de serviços, fazendo com que haja um crescimento urbano e migrações pendulares. No entanto, o crescimento na periferia aumenta a área de expansão urbana, porém não a área urbanizada, uma vez que esse crescimento desordenado faz com que haja uma falta de planejamento urbano, acarretando uma sobrecarga da infra-estrutura, que não é capaz de atingir tais áreas que ficam carentes de transporte, moradia, saneamento básico e energia.”
O engenheiro de tráfego Erik Sato ainda completa que as consequências são mais positivas do que o contrário – “a primeira idéia que vem para um engenheiro, é positiva, pois esse crescimento da malha urbana, independentemente de qualquer valor socio-urbanistico, a engenharia esta envolvida, e terá campo. Mesmo que isso implique a perda de valores para a cidade.”
O espaço urbano de uma cidade, envolve muito mais a engenharia urbana, do que simplesmente a construção civil. E nessa área da engenharia civil, há muita preocupação com valores históricos e gestão urbana. Erik ainda completa – “vejo muito mais consequencias positivas que negativas, pelo fato de que esse crescimento agrega novas tecnologias, empregos, e trará algumas características e valores da metrópole”
Já o prefeito de Embu das Artes, Chico Britto, reforçou a insatisfação dos municípios com dados sobre os gastos feitos pelo Governo Federal, Estadual e Municipal. “De cada R$ 100 gastos com saúde R$ 1 é do Estado R$ 79 de governo federal e R$ 19 do município. A presença do estado é quase abstrata nas cidades. Se olharmos os números do que o estado arrecada nos municípios e o que ele devolve em investimentos vamos ver as disparidades”, declarou
Estas cidades-satélites sofrem com o processo natural de conurbação pela qual são submetidas e os reflexos deste processo muitas vezes são vistos apenas por aqueles que lá residem ou habitam.
O crescente avanço demográfico da região metropolitana de São Paulo caracteriza a maior megalópole do país, crescendo cerca de 19 milhões desde a década de 1940 (IBGE- cidades - http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1 ). Porém as mudanças não são apenas populacionais, mas também de infra-estrutura e responsabilidade governamental, uma vez que quase quarenta cidades estão envolvidas no processo.
Ao ser perguntado sobre o processo de conurbação, suas causas e consequências, Ernesto Salazar, mestrando em economia política pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que pesquisa a expansão desenfreada de malhas urbanas, não apenas no Brasil, mas em outros casos como Cidade do México e Bombaim, defende que existem dois movimentos importantes: o primeiro é o do crescimento populacional dessas cidades, motivado tanto pela vinda de gente qu busca novas oportunidades econômicas em atividades diretamente ligadas à cidade de São Paulo. O outro movimento importante é o de expulsão da população pobre, que se vê impossibilitada de morar perto das regiões centrais, ainda que siga dependendo economicamente de atividades nessa região.
Com esses movimentos, as classes mais baixas da sociedade se veem cada vez mais marginalizadas e excluidas, exaltando a ironia de que quanto mais a cidade cresce, mais pessoas são afastadas e menos pessoas controlam os órgãos responsáveis em mudar este cenário. “Isso amplifica os problemas já existentes de infra estrutura da cidade, com dois agravantes: o primeiro é a própria extensão que tem implicações sobre gerência, e torna a questão de mobilidade urbana que não cabe no escopo de ação de uma prefeitura e leva ao crescimento de cidades sem qualquer base fiscal para que possam ser feitas políticas públicas, uma vez que estas se tornam cidades dormitório para atividades que de fato geram renda no município de São Paulo.” – continua Salazar.
É lógico que o enorme contingente populacional faz com que essas cidades tenham dinamismo próprio, mas em um planejamento integrado de desenvolvimento regional, a tendência a expansão da malha urbana sempre seguirá um padrão de agravamento dos problemas urbanos de São Paulo.
Devido ao avanço da malha urbana, o governo do Estado aprimorou as vias que compoem a região metropolitana, afim de facilitar os processos migratórios diários pelo qual o paulistano que não mora na capital é obrigado a efetuar. O anel viário que cerca a região metropolitana (Rodoanel) complementa o vasto número de acessos à capital, porém sua realização demorou cerca de 50 anos para acontecer e agora atende a mais gente do que era previsto na sua criação (1950). Mario Covas, em 1998 tirou do papel o projeto, que visa evitar a passagem de caminhões, carros e ônibus por dentro das vias marginais da capital (Tietê e Pinheiros).
Recentemente foi criado pelo Governador Geraldo Alckmin a Secretaria de Desenvolvimento Metropolitano, que visa o melhoramento e desenvolvimento da região Metropolitana de São Paulo. De acordo com o secretário atual, Edson Aparecido, serão feitas cinco audiências com os 39 municípios, que serão ouvidos para a conclusão dos planos. “A Região Metropolitana de São Paulo terá um instrumento moderno e contemporâneo de integração e planejamento para a solução dos problemas metropolitanos”, afirma Edson.
A Secretaria foi criada devido à discrepância que existe entre a capital e os demais municípios no entorno da cidade. Em uma das cinco audiências, a prefeita de Juquitiba desabafou e dizendo que em sua cidade “apenas 13% do esgoto é tratado”.
Já o arquiteto Alberto Yun, formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP e responsável por processos de fiscalização da imobiliária Lopes também frisa que os problemas de planejamento são os mais cruciais quando se trata do assunto – “A primeira coisa que vem a mente é a desorganizacao da cidade em si.” Sem este planejamento, a construção e expansão da região se dá de uma maneira desordenada, uma das principais causas de problemas infraestruturais da cidade. Ao contrário da capital francesa Paris, onde as ruas convergem em direção ao marco zero da cidade (Arco do Triunfo), a região metropolitana de São Paulo não segue padrões pré-planejados de ocupação, o que gera uma total displicência na escolha da região para se habitar. Inundações, deslizamentos de terra e saneamento mal distribuido são consequências dessa ocupação despreocupada, tanto por parte do governo quanto por parte da população.”Tendo esse planejamento previo é mais facil de organizar tudo, inclusive os esgostos. Através desse planejamento seria possível fazer um estudo das condições do solo, o que facilitaria no sucesso da implementação de saneamento básico, fornecimento de água e eletricidade, barateando custos e diminuindo prazos.” - completa Alberto.
Os problemas de infra-estrutura causam reflexos na sociedade, que é obrigada a uma adaptação logística. Instituições básicas como escolas e hospitais públicos são as maiores procupações dos moradores e trabalhadores da região. Washington Luiz Correia é um médico nascido no Rio Grande do Norte, formado pela USP (Universidade São Paulo) e dono de uma clínica de hemodiálise na cidade de Osasco, região metropolitana de São Paulo. Por suas várias contribuições à cidade, como a abertura de sua clínica que atende pessoas carentes pelo SUS, em 2007 recebeu o título de “Cidadão Osasquense”.
De acordo com o Dr. Washington, o município com pouco menos de 700 mil habitantes tem mais carências que a capital paulista. “Na área de saúde e de estrutura social Osasco está muito para trás; até culturalmente estamos para trás. A parte de favela de Osasco é muito precária, há muitas carências e pouco trabalho social. Só estamos com o trânsito é melhor”, conta o médico.
“Já exigi muitas mudanças onde eu tenho conhecimento, principalmente na área de saúde, pelo fato de eu ser médico. Mas por Osasco ser um reduto genuinamente petista e o governo Estadual ser do PSDB, é muito difícil negociar acordos e mudanças”, desabafa Washington.
Para os moradores da cidade, Osasco cresceu muito nos últimos anos, mas a estrutura não acompanhou o ritmo acelerado. “Aqui falta segurança, infra-estrutura e principalmente melhorias na saúde. Não estudo na cidade, portanto não posso falar sobre a educação”, conta a estudante de publicidade Juliana do Amaral, 22 anos. ”Mas o pior são as pessoas que moram em condomínios de luxo de Osasco e dizem que moram em São Paulo. Se os moradores não têm amor pela cidade porque os governantes deveriam ter?” questiona a estudante.
A linha férrea do metrô paulistano é, aproximadamente, quatro vezes menor que de suas cidades-irmãs, como Londres e Nova York. Atualmente, ela cobre poucos espaços da capital, e não há previsão de que o metrô chegue às regiões metropolitanas de São Paulo. “Quando eu estudava a noite era um martírio. Tinha que pegar um metrô e um trem e levava mais de uma hora para chegar em casa. Saia do cursinho onze e meia e só chegava por volta da uma da madrugada”, conta Juliana. “E ainda se somarmos com a falta de segurança da cidade dá para se ter uma idéia de como é precária a vida de quem depende de transporte público para chegar a Osasco”, completa a estudante.
Outras cidades, como Jundiaí, não sofrem tanto com problemas de infra-estrutura, mas ainda assim, se comparado a São Paulo, está aquém do esperado pela população. “Por mais que Jundiaí tenha se tornado uma cidade grande e, sim, apresente uma boa infra-estrutura, ainda há exemplos de falhas. Como por exemplo o Projeto SESC (Serviço Social do Comércio), que existe há anos em São Paulo e somente este ano foi criado em alguns pontos de Jundiaí”, relata a empresária Marlene Zanini Frattini, 50 anos.
“Graças a Deus tenho a condição de ir procurar em outras cidades, como Campinas e São Paulo, o que falta em Jundiaí, mas a maior parte da população está sujeita a condições que não seriam as ideais. Falta uma melhor estrutura de hospitais, escolas, tanto públicas quanto técnicas, áreas de lazer, etc”, conta Marlene.
Outro grande problema deste rápido avanço da malha urbana é marginalização não apenas de terrítórios, mas de comunidades e pessoas. Ao ser perguntada porque existe essa marginalização, Karina Suzuki, especialista em planejamento urbano da construtora Cyrela, responde: “A região metropolitana reúne oportunidades e prestações de serviços, fazendo com que haja um crescimento urbano e migrações pendulares. No entanto, o crescimento na periferia aumenta a área de expansão urbana, porém não a área urbanizada, uma vez que esse crescimento desordenado faz com que haja uma falta de planejamento urbano, acarretando uma sobrecarga da infra-estrutura, que não é capaz de atingir tais áreas que ficam carentes de transporte, moradia, saneamento básico e energia.”
O engenheiro de tráfego Erik Sato ainda completa que as consequências são mais positivas do que o contrário – “a primeira idéia que vem para um engenheiro, é positiva, pois esse crescimento da malha urbana, independentemente de qualquer valor socio-urbanistico, a engenharia esta envolvida, e terá campo. Mesmo que isso implique a perda de valores para a cidade.”
O espaço urbano de uma cidade, envolve muito mais a engenharia urbana, do que simplesmente a construção civil. E nessa área da engenharia civil, há muita preocupação com valores históricos e gestão urbana. Erik ainda completa – “vejo muito mais consequencias positivas que negativas, pelo fato de que esse crescimento agrega novas tecnologias, empregos, e trará algumas características e valores da metrópole”
Já o prefeito de Embu das Artes, Chico Britto, reforçou a insatisfação dos municípios com dados sobre os gastos feitos pelo Governo Federal, Estadual e Municipal. “De cada R$ 100 gastos com saúde R$ 1 é do Estado R$ 79 de governo federal e R$ 19 do município. A presença do estado é quase abstrata nas cidades. Se olharmos os números do que o estado arrecada nos municípios e o que ele devolve em investimentos vamos ver as disparidades”, declarou
São Paulo poderá ter pedágios urbanos
Projeto do vereador Carlos Apolinário busca a diminuição dos congestionamentos e da poluição. Dinheiro será revertido para o transporte público
Buscando a melhoria do trânsito de São Paulo, está em tramitação na Câmara Municipal um projeto de Lei proposto pelo vereador Carlos Apolinário (DEM) que visa a implementação de pedágios urbanos no centro expandido da cidade. O projeto foi considerado legal pela CCJ (Comissão de Constituição de Justiça) no último dia 25 de abril, mas ainda não há prazo para que a Lei seja votada e sancionada.
A taxa cobrada para os veículos que circularem pelo centro expandido será de quatro reais por dia, não importando o número de vezes que o motorista circular pela área, que é a mesma onde já funciona o rodízio municipal. Se o cidadão tiver de ir todos os dias ao centro, o máximo que ele pagará será 88 reais mensais, pois nos fins de semana e feriados a circulação será isenta de cobrança.
Segundo o vereador Carlos Apolinário, redator do projeto, o dinheiro arrecadado deverá ir para o transporte público. Pelos cálculos do vereador e sua equipe, tendo como base os números da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), a cobrança renderá a São Paulo dois bilhões de reais anuais, dinheiro que tornaria possível a criação de mais corredores de ônibus e a construção de aproximadamente 10 km de metrô por ano, já que cada quilômetro de linha custa ao governo 220 milhões de reais.
A CET, contudo, afirmou à reportagem não ter o número de veículos que circulam diariamente pelo centro expandido de São Paulo. Nas marginais existe o levantamento, e foi constatado que pela marginal Tietê passam 180 mil carros por dia, enquanto na marginal Pinheiros são 350 mil. Pelos cálculos, a arrecadação mensal com os pedágios urbanos seria de aproximadamente 10 milhões e 200 mil reais.
Por outro lado, o arquiteto, urbanista e professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP) Cândido Malta Campos Filho fez um levantamento próprio, no qual “anualmente a cidade arrecadará 600 milhões de reais, o que tornaria possível a construção de 2 km de metrô por ano”. Atualmente, é construído apenas 1 km de metrô ao ano.
O professor Cândido acredita que a curto prazo não há outra saída a não ser a implementação de pedágios, e defende que este projeto diminuiria 30% da frota de veículos que circulam diariamente pela capital paulista, o que auxiliaria, inclusive, na redução dos problemas de estresse da população.
Para Cândido Malta, a malha metroviária já existente em São Paulo não comportará um número maior de pessoas usando o transporte coletivo e, por isso, seria necessária a criação de mais linhas de micro-ônibus interligando as regiões de acesso aos metrôs e trens.
Dentro da proposta do projeto de lei, Carlos Apolinário estipula que todos os veículos tenham instalados chips de identificação, o que tornaria possível a fiscalização dos veículos que entrarem no centro expandido. O sistema de cobrança, segundo Apolinário, seria semelhante ao sistema Sem Parar de pedágio e estacionamento, com emissão de cobranças mensais. O projeto propõe ainda que os táxis estarão livres da taxação para que o preço das corridas não aumente. Para os carros de fora do município de São Paulo, mas que percorrem as regiões da cidade onde ocorrerá a cobrança, ainda não existe um planejamento.
No início de 2012, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei Mobilidade Urbana, que libera municípios com mais de 20 mil habitantes a terem pedágios urbanos. Carlos Apolinário tem a mesma opinião do professor Cândido Malta, em que os pedágios são o único modo de reduzir os congestionamentos, a poluição causada pelos carros e incentivar as pessoas a utilizarem meios alternativos de transporte. “Na minha casa, eu tenho carro, minha mulher tem carro, meu filho tem carro e minha neta (de 16 anos) já está pensando em um carro. Essa é a nossa mentalidade. As pessoas precisam voltar a ter um pouco mais de razão em relação à saúde, em relação à cidade”, afirma Apolinário.
O próprio Carlos Apolinário concorda que o projeto dos pedágios é impopular e que dificilmente será votado em 2012, ano de eleições municipais. “O pedágio urbano é um projeto impopular. Para implementá-lo tem que ser por um prefeito eleito. Só existem duas pessoas a favor dele: o professor Cândido Malta, pelo trânsito, e o Secretário do Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, pelo meio ambiente.”
Antes de ser votado, o projeto de Lei ainda terá de passar pela Comissão de Transportes e pela Comissão de Finanças. Procuradas pela reportagem, CET e SPTrans afirmaram que ainda não realizam estudos sobre a implementação dos pedágios.
Buscando a melhoria do trânsito de São Paulo, está em tramitação na Câmara Municipal um projeto de Lei proposto pelo vereador Carlos Apolinário (DEM) que visa a implementação de pedágios urbanos no centro expandido da cidade. O projeto foi considerado legal pela CCJ (Comissão de Constituição de Justiça) no último dia 25 de abril, mas ainda não há prazo para que a Lei seja votada e sancionada.
A taxa cobrada para os veículos que circularem pelo centro expandido será de quatro reais por dia, não importando o número de vezes que o motorista circular pela área, que é a mesma onde já funciona o rodízio municipal. Se o cidadão tiver de ir todos os dias ao centro, o máximo que ele pagará será 88 reais mensais, pois nos fins de semana e feriados a circulação será isenta de cobrança.
Segundo o vereador Carlos Apolinário, redator do projeto, o dinheiro arrecadado deverá ir para o transporte público. Pelos cálculos do vereador e sua equipe, tendo como base os números da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), a cobrança renderá a São Paulo dois bilhões de reais anuais, dinheiro que tornaria possível a criação de mais corredores de ônibus e a construção de aproximadamente 10 km de metrô por ano, já que cada quilômetro de linha custa ao governo 220 milhões de reais.
A CET, contudo, afirmou à reportagem não ter o número de veículos que circulam diariamente pelo centro expandido de São Paulo. Nas marginais existe o levantamento, e foi constatado que pela marginal Tietê passam 180 mil carros por dia, enquanto na marginal Pinheiros são 350 mil. Pelos cálculos, a arrecadação mensal com os pedágios urbanos seria de aproximadamente 10 milhões e 200 mil reais.
Por outro lado, o arquiteto, urbanista e professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP) Cândido Malta Campos Filho fez um levantamento próprio, no qual “anualmente a cidade arrecadará 600 milhões de reais, o que tornaria possível a construção de 2 km de metrô por ano”. Atualmente, é construído apenas 1 km de metrô ao ano.
O professor Cândido acredita que a curto prazo não há outra saída a não ser a implementação de pedágios, e defende que este projeto diminuiria 30% da frota de veículos que circulam diariamente pela capital paulista, o que auxiliaria, inclusive, na redução dos problemas de estresse da população.
Para Cândido Malta, a malha metroviária já existente em São Paulo não comportará um número maior de pessoas usando o transporte coletivo e, por isso, seria necessária a criação de mais linhas de micro-ônibus interligando as regiões de acesso aos metrôs e trens.
Dentro da proposta do projeto de lei, Carlos Apolinário estipula que todos os veículos tenham instalados chips de identificação, o que tornaria possível a fiscalização dos veículos que entrarem no centro expandido. O sistema de cobrança, segundo Apolinário, seria semelhante ao sistema Sem Parar de pedágio e estacionamento, com emissão de cobranças mensais. O projeto propõe ainda que os táxis estarão livres da taxação para que o preço das corridas não aumente. Para os carros de fora do município de São Paulo, mas que percorrem as regiões da cidade onde ocorrerá a cobrança, ainda não existe um planejamento.
No início de 2012, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei Mobilidade Urbana, que libera municípios com mais de 20 mil habitantes a terem pedágios urbanos. Carlos Apolinário tem a mesma opinião do professor Cândido Malta, em que os pedágios são o único modo de reduzir os congestionamentos, a poluição causada pelos carros e incentivar as pessoas a utilizarem meios alternativos de transporte. “Na minha casa, eu tenho carro, minha mulher tem carro, meu filho tem carro e minha neta (de 16 anos) já está pensando em um carro. Essa é a nossa mentalidade. As pessoas precisam voltar a ter um pouco mais de razão em relação à saúde, em relação à cidade”, afirma Apolinário.
O próprio Carlos Apolinário concorda que o projeto dos pedágios é impopular e que dificilmente será votado em 2012, ano de eleições municipais. “O pedágio urbano é um projeto impopular. Para implementá-lo tem que ser por um prefeito eleito. Só existem duas pessoas a favor dele: o professor Cândido Malta, pelo trânsito, e o Secretário do Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, pelo meio ambiente.”
Antes de ser votado, o projeto de Lei ainda terá de passar pela Comissão de Transportes e pela Comissão de Finanças. Procuradas pela reportagem, CET e SPTrans afirmaram que ainda não realizam estudos sobre a implementação dos pedágios.
Do legume à Portugal
A artrite já não permite que os dedos que outrora ceivavam o que a terra disponibilizasse para comer durante o ano todo cortem com destreza os legumes para um almoço simples, porém farto, para si própria e para a filha num almoço casual em plena terça-feira. Já sabendo do conteúdo da conversa, o olhar se perde num infinito longínquo de lembranças a cada pedaço de cenoura que se choca com um simples vasilhame de plástico em cima da pia.
Uma ilha sem muitos recursos, perdida no Atlântico, não proporciona oportunidades, para que pessoas enriqueçam por seu trabalho e força de vontade. Na Ilha da Madeira, é mais provável que a terra absorva o ser humano do que o inverso. “Nasci e morei lá até os 40 anos, mas nunca mais voltei e não tenho a mínima vontade de voltar. Você voltaria para onde a única lembrança é de sofrimento e fome?”.
Maria de Freitas Caetano, 92 anos, já passou mais de metade de sua vida morando no Brasil, mais precisamente na zona leste de São Paulo. Contudo, mesmo com toda a ojeriza de lembranças de sua terra natal, ainda não perdeu o caraterístico sotaque português da Ilha da Madeira. Segundo ela, um jeito menos anasalado e complicado de se falar, que provavelmente é uma mistura do sotaque português de Portugal com o de judeus e marroquinos que serviram como escravos durante o povoamento da ilha.
Mais antiga que o descobrimento do Brasil, a colonização da Ilha da Madeira teve início ainda, no século XIV, para ser uma colônia de exploração e, principalmente, para desafogar as prisões de Portugal. “As pessoas do continente nos chamavam de carrascos, pelos nossos antepassados. Eu já era estrangeira na minha terra e vim ser estrangeira também no Brasil”, relata Maria com bom humor.
De mudança para o outro lado do Atlântico com o marido e quatro filhos pequenos, com as passagens ainda em débito com vizinhos, Maria vislumbrou um futuro melhor longe da terra onde nascera. “Tinha familiares no Brasil. Eles diziam que trabalhavam muito como lá, mas que pelo menos aqui se ganhava dinheiro para sobreviver sem fome”.
Maria viveu em um cortiço e vendia bordados, enquanto o marido trabalhava em uma fábrica de colchões da Probel. Suas irmãs conseguiram se estabelecer e compraram terras no interior do estado de São Paulo, porém Maria não teve a mesma oportunidade e recorreu à cidade grande para tentar realizar seu projeto de uma vida melhor.
Hoje, a senhora portuguesa gasta seu tempo bordando por hobbie e não tem as preocupações financeiras de antigamente. “Consegui estudar todos os meus filhos e essa foi minha sorte. Gasto quase mil reais com medicamentos por mês e, graças a Deus, não tenho que me preocupar com isso”.
Nesse mesmo momento, sua filha, que se chama Alcinda, lança-lhe um olhar ressabiado e dá um risada irônica antes de soltar um leve puxão de orelha na idosa: “Só porque a senhora não paga nada, não quer dizer que esteja tudo bem. Olha quanto sal na comida. Diminui que a conta dos remédios também caem”. Maria se deu o direito de fingir que não escutou essa argumentação.
Maria pode ser considerada o estereótipo da senhorinha bonachona. A qualquer momento, os olhos já cercados por rugas lançam olhares de complacência acompanhados de um sorriso e sempre com as mesmas palavras iniciando suas frases: “oh, meu filho...” ou “oh, meu filhi...”, se formos levar ao pé da letra o sotaque madeirense.
O almoço acabou e Maria se levanta com dificuldade para se dirigir até a sala de sua casa para cochilar um pouco. A idade avançada já está pesando sobre suas pernas, e a silhueta espaça contribui com a dificuldade de respirar num percurso de apenas dez metros que ilustra a frase dita por sua filha há pouco mais de 30 minutos.
“Acho que minha pressão está um pouco baixa”, diz Maria a sua filha, ao se sentar em sua poltrona. Alcinda joga os olhos para cima, relaxa os braços em sinal de desistência e sai para trabalhar sem falar “tchau”. Maria ganhou a batalha pelo direito do sal.
Antes de tirar seu merecido cochilo após o almoço, Maria faz uma oração em voz baixa de maneira demorada. “Estou agradecendo tudo que eu tenho e pedindo paz para aqueles que já se foram”. Maria perdeu o marido há pouco mais de dois anos e, durante sua vida, viu seis de seus filhos morrerem em decorrência da falta de recursos tanto na Ilha da Madeira quanto no Brasil. “Passei por muitas tristezas, mas não vai demorar pra eu ir encontrar o meu velho”.
Para os amigos que a conhecem desde os velhos tempos, Maria sempre disse que não ia durar muito, pois sempre foi muito doente. Mas já chegou aos 92 anos, e os cem estão logo ali.
A nova política tabagista brasileira
Preço do cigarro aumenta e influencia no bolso do consumidor
O preço do cigarro aumentou no último dia primeiro de maio e está alterando a rotina dos fumantes que agora estão fazendo contas para avaliar se ainda vale a pena continuar com o cigarro. “Antes eu gastava 100 ou 120 reais por mês. Agora vou gastar uns 150 reais. É uma boa hora para parar de fumar”, afirma o estudante Rodolfo Paioletti, 20 anos.
O governo aumentou o modelo de cobrança do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos cigarros, com a nova aliquota reajustada para 14% a partir do dia 06 de abril de 2012. Esse reajuste trará aos consumidores o preço já reajustado a partir dos varejistas. Além deste reajuste, o governo também impôs aos varejistas que maços de cigarro devem chegar ao bolso do consumidor por no mínimo 3 reais, sujeitando-o à punições legais caso esta nova implementação não seja seguida.
O IPI é cobrado pelo governo federal com base no valor dos produtos manufaturados pela indústria nacional, portanto, está presente sobre todos os produtos industrializados. O economista e professor pela Universidade São Judas Tadeu, Davi D. Dantas, foi entrevistado e explicou o aumento do IPI dos cigarros como uma ação do governo para estimular que as pessoas parem de fumar. "Há alguns anos o governo federal tem sinalizado com uma política publica de maior restrição ao consumo de cigarros, por essa razão aumenta o IPI do produto."
O professor afirma que os fumantes terão que pagar mais caro para satisfazer seus desejos e que os não fumantes podem até ser beneficiados: "Com relação aos não fumantes, a medida indiretamente os beneficias porque as pessoas devem consumir menos cigarros, ou, se mantiverem o consumo normal, pagarão mais impostos ao governo, que poderá redistribuí-los na forma de benefícios á população geral.”
Em relação às outras mudanças causadas pelo aumento do valor do cigarro, Dantas afirma: "A indústria tabagista envolve vários setores da economia, principalmente na produção do fumo, realizadas em pequenas e médias propriedades agrícolas. Deste modo, a redução do consumo implica mudanças nos padrões de produção destas unidades agrícolas."
O Doutor em Economia Política pela UFRJ, Ernesto Salles, 27 anos, também explica que o cigarro influencia na inflação brasileira, porém o efeito é reduzido. “No índice mais comum, o IPCA do IBGE, o peso do tabaco na cesta de bens sobre a qual a inflação é calculada é inferior a 1%. Além disso, é importante ter em conta que aumentos de impostos, ainda que impactem sobre o preço em um primeiro momento não constituem fator de pressão inflacionária, uma vez que uma vez reajustado, esse valor permanecerá estável nos meses seguintes.”, afirma o Doutor.
Com o acréscimo no valor, apesar da expectativa de que o número de fumantes caísse quando foi concretizado o aumento, vendedores e donos de estabelecimentos que vendem cigarros dizem o contrário. "Pessoas que ganham menos procuram por cigarros mais baratos, mas no número de vendas não mudou muita coisa", afirma José Adauto Araújo, 47 anos, dono de uma padaria. "Teve um cliente que eu fui informar do aumento, ele me disse que mesmo custando R$ 50,00 ele vai continuar fumando", conta Marta Silveira, 38 anos, dona de uma banca de jornal.
A frase do aposentado Ângelo Zago, 84 anos, prova que o aumento ainda não afetou diretamente no seu consumo. “Eu fumo desde os 15 anos. O meu vício impede que eu diminua, então eu continuo comprando o mesmo número de cigarros mesmo o preço tendo sido elevado”.
Inicialmente o aumento sobre a tributação do cigarro estava previsto para novembro de 2011, mas após um decreto emitido pelo governo, o reajuste foi adiado para abril do próximo ano. Em nota emitida pela fabricante Souza Cruz, diz-se: "A Souza Cruz, em virtude da necessidade de administrar os impactos desta medida, repassará aos seus produtos um aumento médio de 24% a partir de 6 de abril".
Em entrevista ao Valor Econômico, Andrea Martini, presidente da companhia prevê que com esta medida, o consumo de cigarros no país diminua. E isso é previsto sem a utilização de valores reais ou projeções de demanda. Já no ano passado a empresa registrou uma diminuição de 1,4% no volume de cigarros vendidos.
O novo preço dos cigarros pode variar de acordo com a marca, os ingredientes e a apresentação do produto, de acordo com o intervalo de R$ 0,76 a R$ 1,30 sobre a taxação do IPI. O decreto prevê um aumento de 55% no preço final que chega às mãos do consumidor. A arrecadação total do governo sobre os cigarros vai aumentar, segundo projeções da Receita Federal, passando de R$ 3,7 bi/ano para R$ 7,7 bi/ano em 2015. Esta arrecadação será usada pelo governo para compensar a perda de R$ 20,7 bilhões referente ao pacote de auxílio à empresas que contém desonerações de produtos, além de outras medidas favoráveis à concorrência.
"O preço do cigarro está um absurdo, eu sei que isso serve de incentivo para as pessoas pararem de fumar, mas eu acredito que existam outros vícios que são muito mais baratos e, dessa forma acabam sendo até mesmo incentivados", começa Andressa Melo, 19 anos, estudante e fumante. "O álcool, por exemplo, é mais viciante e muito mais consumido que o cigarro. Se você pensar na proporção do preço do litro da cerveja, por exemplo, acaba sendo muito mais acessível", conclui Andressa.
Os fabricantes, porém, podem escolher entre dois modos de produção e distribuição dos cigarros. Ele poderá escolher entre o Regime Geral ou o Regime Especial. Caso escolha permanecer no regime geral, terá que aceitar um aumento de 81% na carga tributária. O artigo 2 do informe disponibilizado pela receita federal diz: “O IPI, seja no regime geral ou especial, será apurado e recolhido uma única vez pelo estabelecimento industrial, nas saídas dos cigarros destinados ao mercado interno, ou pelo importador, no desembaraço aduaneiro dos cigarros de procedência estrangeira. Além disso, na hipótese de adoção de preços diferenciados em relação a uma mesma marca comercial de cigarro, prevalecerá, para fins de apuração e recolhimento do IPI, o maior preço de venda no varejo praticado em cada Estado ou no Distrito Federal”.
O artigo 5º do decreto nº 7555 aponta que aqueles que optarem pelo Regime Especial poderão apurar e recolher o IPI através da somatória de duas parcelas, calculadas a partir de tabelas das seguintes alíquotas:
VIGÊNCIA ALÍQUOTAS
AD VALOREM ESPECÍFICA
MAÇO BOX
01/12/2011 a 30/04/2012 0% R$ 0,80 R$ 1,15
01/05/2012 a 31/12/2012 40,0% R$ 0,90 R$ 1,20
01/01/2013 a 31/12/2013 47,0% R$ 1,05 R$ 1,25
01/01/2014 a 31/12/2014 54,0% R$ 1,20 R$ 1,30
A partir de 01/01/2015 60,0% R$ 1,30 R$ 1,30
O reflexo deste aumento poderá ser melhor visto dentro de alguns anos, uma vez que a projeção do governo prevê um preço final de R$ 12,00 para o maço de cigarro. Além da diminuição de demanda, prevê-se uma diminuição de oferta, já que aqueles que não seguirem às estipulações previstas no decreto podem sofrer consequências penais, como a probição da venda por parte do distribuidor ou o registro suspenso por parte do fabricante.
Roger Waters emociona 60 mil pessoas no Morumbi
Roger Waters emociona 60 mil pessoas no Morumbi
Nos portões do Morumbi o clima para o show do ex- Pink Floyd não era muito diferente ao de outros espetáculos. A massa trajando preto e caminhando a passos lentos sorria e cantava regada a doses cavalares de cerveja e vinho químico, que logo se tornariam suor e vômitos se esvaindo em clamor por Roger Waters.
A passagem pelos portões é sempre marcada como um momento mágico; o momento em que cai a ficha e um estranho otimismo toma conta do ar. Amigos se abraçam como nunca e riem de maneira cativante. Nessa hora é fácil imaginar o tema da vitória da Fórmula 1 tocando ao fundo.
Lendas do rock, para nós que vivemos no Brasil e não estamos acostumados com eles por aqui o tempo todo, são como uma espécie de Divindade. Os veneramos por anos, mesmo sem nunca termos chegado perto deles para confirmar sua existência.
Atualmente, contudo, muitos artistas que há 15 anos nem sonharíamos ver estão vindo ao Brasil. Iron Maiden, Kiss, U2 e outras bandas agora se dão ao luxo de cruzar o Atlântico e descobrir um novo cantinho na América.
Parecia mentira, afinal, o show foi exatamente no dia 1 de abril, mas o palco para este grande evento não tinha toda a parafernália de caixas de som e telões múltiplos que são comuns em um show de rock.
Estava ali um palco bem cumprido, com 137 metros, mas com apenas um pequeno telão redondo e uma parede destruída bem onde a banda ficava. Aliás, o show era inteiramente feito com o álbum The Wall, lançado em 1979.
Roger, já um senhor com uma vasta cabeleira branca, dessa vez não surgiu com o tradicional baixo de quatro cordas que lhe acompanhava nos velhos tempos, mas sim com um violão preso ao ombro. Um aviador cobria boa parte de seu rosto, estava todo vestido de preto e ostentava um andar firme.
Não fez nenhuma saudação. Apenas apareceu e começou os primeiros acordes de In the flesh?. Impossível não notar a semelhança do cantor com Richard Gere.
Na plateia, olhos brilhando e gritos abafados pelos pulos que logo cessaram com o mar de cabeças que balançavam ao som lento, repetitivo e pesado da música de abertura do The Wall. Parecia que todos estavam numa transe ensaiada com movimentos quase idênticos, porém involuntários.
Ao todo foram tocadas 28 músicas durante duas horas e meia de show. O The Wall tem um significado especial para Roger Waters, pois as músicas são autobiográficas e são da trilha sonora do filme que leva o mesmo nome.
Ao longo do show, a parede que estava quebrada no meio foi aos poucos sendo reconstruída. Tão lentamente que muitos na plateia só perceberam a mudança quando ela estava completa e havia se tornado um imenso telão onde eram projetadas imagens variadas e as letras das músicas. Tudo ficou um pouco psicodélico nesse momento.
O telão e as caixas de som conversavam. Uma bomba explodia virtualmente atrás de Roger, mas quem sentia o impacto nos ouvidos era o público que não sabia ao certo se aquele barulho era real ou não. “Estava tudo muito lindo. Não esperava tanta produção no show do Rogério Águas (risos)”, diz Juliana Stankevicius, estudante, 20 anos.
Os sons que não faziam parte da banda, como de um helicóptero ou de crianças berrando e cantando não partiam das caixas de som do palco, mas sim de amplificadores colocados em cima do anel superior do estádio.
A sensação era de que realmente haviam crianças e helicópteros muito próximos do Morumbi, tanto que a todo o momento as pessoas olhavam para o alto em busca de alguma aeronave sempre com cara de interrogação e, depois, davam um leve sorrisinho ao perceberem que aquilo não era real.
“Nunca gostei muito de Pink Floyd, ficava mais no respeito por ser uma grande banda. Depois do show - que, agora, considero um espetáculo - comecei a gostar muito mais. A ‘parede’ era extremamente bem feita e o som era simplesmente espetacular”, afirma o estudante Andreas Couto, 20 anos.
Também foi possível notar que o show é extremamente teatral, e que Roger deve ter tido alguma dificuldade para decorar cada movimento feito durante o show. Algumas vezes o Roger do telão fazia os movimentos antes do Roger ao vivo.
Terminado o espetáculo, foram poucos os espectadores que sentiram falta dos outros quatro integrantes que formavam o Pink Floyd junto com Roger. Os efeitos especiais, a alta qualidade de som e , claro, o ótimo desempenho do artista de 68 anos de idade não deixaram lacunas a serem preenchidas.
Nos portões do Morumbi o clima para o show do ex- Pink Floyd não era muito diferente ao de outros espetáculos. A massa trajando preto e caminhando a passos lentos sorria e cantava regada a doses cavalares de cerveja e vinho químico, que logo se tornariam suor e vômitos se esvaindo em clamor por Roger Waters.
A passagem pelos portões é sempre marcada como um momento mágico; o momento em que cai a ficha e um estranho otimismo toma conta do ar. Amigos se abraçam como nunca e riem de maneira cativante. Nessa hora é fácil imaginar o tema da vitória da Fórmula 1 tocando ao fundo.
Lendas do rock, para nós que vivemos no Brasil e não estamos acostumados com eles por aqui o tempo todo, são como uma espécie de Divindade. Os veneramos por anos, mesmo sem nunca termos chegado perto deles para confirmar sua existência.
Atualmente, contudo, muitos artistas que há 15 anos nem sonharíamos ver estão vindo ao Brasil. Iron Maiden, Kiss, U2 e outras bandas agora se dão ao luxo de cruzar o Atlântico e descobrir um novo cantinho na América.
Parecia mentira, afinal, o show foi exatamente no dia 1 de abril, mas o palco para este grande evento não tinha toda a parafernália de caixas de som e telões múltiplos que são comuns em um show de rock.
Estava ali um palco bem cumprido, com 137 metros, mas com apenas um pequeno telão redondo e uma parede destruída bem onde a banda ficava. Aliás, o show era inteiramente feito com o álbum The Wall, lançado em 1979.
Roger, já um senhor com uma vasta cabeleira branca, dessa vez não surgiu com o tradicional baixo de quatro cordas que lhe acompanhava nos velhos tempos, mas sim com um violão preso ao ombro. Um aviador cobria boa parte de seu rosto, estava todo vestido de preto e ostentava um andar firme.
Não fez nenhuma saudação. Apenas apareceu e começou os primeiros acordes de In the flesh?. Impossível não notar a semelhança do cantor com Richard Gere.
Na plateia, olhos brilhando e gritos abafados pelos pulos que logo cessaram com o mar de cabeças que balançavam ao som lento, repetitivo e pesado da música de abertura do The Wall. Parecia que todos estavam numa transe ensaiada com movimentos quase idênticos, porém involuntários.
Ao todo foram tocadas 28 músicas durante duas horas e meia de show. O The Wall tem um significado especial para Roger Waters, pois as músicas são autobiográficas e são da trilha sonora do filme que leva o mesmo nome.
Ao longo do show, a parede que estava quebrada no meio foi aos poucos sendo reconstruída. Tão lentamente que muitos na plateia só perceberam a mudança quando ela estava completa e havia se tornado um imenso telão onde eram projetadas imagens variadas e as letras das músicas. Tudo ficou um pouco psicodélico nesse momento.
O telão e as caixas de som conversavam. Uma bomba explodia virtualmente atrás de Roger, mas quem sentia o impacto nos ouvidos era o público que não sabia ao certo se aquele barulho era real ou não. “Estava tudo muito lindo. Não esperava tanta produção no show do Rogério Águas (risos)”, diz Juliana Stankevicius, estudante, 20 anos.
Os sons que não faziam parte da banda, como de um helicóptero ou de crianças berrando e cantando não partiam das caixas de som do palco, mas sim de amplificadores colocados em cima do anel superior do estádio.
A sensação era de que realmente haviam crianças e helicópteros muito próximos do Morumbi, tanto que a todo o momento as pessoas olhavam para o alto em busca de alguma aeronave sempre com cara de interrogação e, depois, davam um leve sorrisinho ao perceberem que aquilo não era real.
“Nunca gostei muito de Pink Floyd, ficava mais no respeito por ser uma grande banda. Depois do show - que, agora, considero um espetáculo - comecei a gostar muito mais. A ‘parede’ era extremamente bem feita e o som era simplesmente espetacular”, afirma o estudante Andreas Couto, 20 anos.
Também foi possível notar que o show é extremamente teatral, e que Roger deve ter tido alguma dificuldade para decorar cada movimento feito durante o show. Algumas vezes o Roger do telão fazia os movimentos antes do Roger ao vivo.
Terminado o espetáculo, foram poucos os espectadores que sentiram falta dos outros quatro integrantes que formavam o Pink Floyd junto com Roger. Os efeitos especiais, a alta qualidade de som e , claro, o ótimo desempenho do artista de 68 anos de idade não deixaram lacunas a serem preenchidas.
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
Nunca antes na história desse país
Talvez a frase que mais tenha ficado marcada na cabeça do povo brasileiro entre as tantas ditas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante seus oito anos de governo tenha sido a saudosa “nunca antes na história desse país...”.
No que diz respeito a algumas ações de seu governo, talvez Lula estivesse certo em usar algumas vezes este jargão. Contudo, provavelmente ele se esqueceu que no passado um certo presidente passou por muitos problemas e momentos de glória semelhantes aos seus.
Estudando um pouquinho de história da política brasileira, pode-se constatar que tanto Lula, como Getúlio Vargas tiveram atitudes e vivenciaram situações parecidas. Durante uma reunião ministerial em 30/08/07, o próprio Lula se comparou a Vargas, dizendo que estava “convencido que as realizações sociais e econômicas e o projeto de país só terão comparação com o governo do presidente Getúlio Vargas”.
Ambos os presidentes foram homens populistas, carismáticos e amados pela classe operária. Conseguindo isso graças às políticas assistencialistas e ao Nacionalismo acima de tudo; mesmo que seus opositores rogassem pelas políticas do Liberalismo.
Para chegar ao poder, Lula galgou durante três eleições perdidas até conseguir trocar seu apartamento em São Bernardo pelo Palácio da Alvorada, em Brasília. Nesses 12 anos de tentativas, foi derrotado por Collor e FHC, em duas oportunidades.
Já Vargas subiu ao poder de maneira indireta, pelo fato de a Oligarquia de São Paulo ter quebrado o acordo com a Oligarquia de Minas Gerais pelo revezamento do poder sobre o Brasil. Com a vitória da aliança entre Paraíba, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, o gaúcho Getúlio Vargas se tornou presidente. Somente o segundo mandato de Getúlio veio por meio da democracia.
Com a imprensa os dois também tiveram uma relação de amor e ódio. Durante suas vidas políticas, angariaram alguns opositores de peso, mas nenhum conseguiu manchar suas imagens com a população.
Vargas recebeu uma oposição ferrenha por parte da grande imprensa e principalmente do jornalista Carlos Lacerda e o jornal Tribuna da Imprensa. Porém, recebeu apoio de Samuel Weiner e o jornal a Última Hora, mesmo que o diário de Weiner só tenha sido aberto com o dinheiro emprestado do Banco do Brasil por Getúlio.
Lula, por sua vez, foi alvo críticas e oposição aberta da revista Veja ao longo dos seus oito anos de mandato, assim como de outros veículos também, mas nada tão escancarado como o da revista. Por outro lado, teve apoio da Caros Amigos e da Carta Capital.
Nas alianças políticas, Lula barganhou o apoio dos antigos alvos de suas “pedras”, como José Sarney e Fernando Collor, conseguindo manter a maioria no congresso mesmo perante a forte oposição do PSDB e seus aliados.
A pedra no sapato de Vargas sempre foi a UDN de Carlos Lacerda. O partido fazia oposição por oposição e ,reza a lenda, na criação da Petrobrás Getúlio sugeriu que a estatal fosse uma empresa público-privada apenas para que a UDN fosse contra seus princípios liberais e o capital da petrolífera se tornasse inteiramente nacional.
Nos escândalos, uma CPI para cada um. Nos “louros”, o virtual posto de pais de milhões de brasileiros. Vargas morreu e se tornou um mártir.
Lula no momento está doente, vítima de um câncer e passa por uma quimioterapia. Estará caminhando ao encontro da história política brasileira mais uma semelhança entre os dois ex-presidentes?
No que diz respeito a algumas ações de seu governo, talvez Lula estivesse certo em usar algumas vezes este jargão. Contudo, provavelmente ele se esqueceu que no passado um certo presidente passou por muitos problemas e momentos de glória semelhantes aos seus.
Estudando um pouquinho de história da política brasileira, pode-se constatar que tanto Lula, como Getúlio Vargas tiveram atitudes e vivenciaram situações parecidas. Durante uma reunião ministerial em 30/08/07, o próprio Lula se comparou a Vargas, dizendo que estava “convencido que as realizações sociais e econômicas e o projeto de país só terão comparação com o governo do presidente Getúlio Vargas”.
Ambos os presidentes foram homens populistas, carismáticos e amados pela classe operária. Conseguindo isso graças às políticas assistencialistas e ao Nacionalismo acima de tudo; mesmo que seus opositores rogassem pelas políticas do Liberalismo.
Para chegar ao poder, Lula galgou durante três eleições perdidas até conseguir trocar seu apartamento em São Bernardo pelo Palácio da Alvorada, em Brasília. Nesses 12 anos de tentativas, foi derrotado por Collor e FHC, em duas oportunidades.
Já Vargas subiu ao poder de maneira indireta, pelo fato de a Oligarquia de São Paulo ter quebrado o acordo com a Oligarquia de Minas Gerais pelo revezamento do poder sobre o Brasil. Com a vitória da aliança entre Paraíba, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, o gaúcho Getúlio Vargas se tornou presidente. Somente o segundo mandato de Getúlio veio por meio da democracia.
Com a imprensa os dois também tiveram uma relação de amor e ódio. Durante suas vidas políticas, angariaram alguns opositores de peso, mas nenhum conseguiu manchar suas imagens com a população.
Vargas recebeu uma oposição ferrenha por parte da grande imprensa e principalmente do jornalista Carlos Lacerda e o jornal Tribuna da Imprensa. Porém, recebeu apoio de Samuel Weiner e o jornal a Última Hora, mesmo que o diário de Weiner só tenha sido aberto com o dinheiro emprestado do Banco do Brasil por Getúlio.
Lula, por sua vez, foi alvo críticas e oposição aberta da revista Veja ao longo dos seus oito anos de mandato, assim como de outros veículos também, mas nada tão escancarado como o da revista. Por outro lado, teve apoio da Caros Amigos e da Carta Capital.
Nas alianças políticas, Lula barganhou o apoio dos antigos alvos de suas “pedras”, como José Sarney e Fernando Collor, conseguindo manter a maioria no congresso mesmo perante a forte oposição do PSDB e seus aliados.
A pedra no sapato de Vargas sempre foi a UDN de Carlos Lacerda. O partido fazia oposição por oposição e ,reza a lenda, na criação da Petrobrás Getúlio sugeriu que a estatal fosse uma empresa público-privada apenas para que a UDN fosse contra seus princípios liberais e o capital da petrolífera se tornasse inteiramente nacional.
Nos escândalos, uma CPI para cada um. Nos “louros”, o virtual posto de pais de milhões de brasileiros. Vargas morreu e se tornou um mártir.
Lula no momento está doente, vítima de um câncer e passa por uma quimioterapia. Estará caminhando ao encontro da história política brasileira mais uma semelhança entre os dois ex-presidentes?
Aos senhores obviamente óbvios
A sociedade perfeita de Utopia idealizada por Thomas Morus no século XVI nem chegou perto de ser posta em prática em nenhuma nação. Mas agora pensemos num país imaginário, é claro, em que para onde se olhe existe algo extremamente errado e mesmo assim tudo continua na maior normalidade. Vamos chamar este lugar de Anarco-utopia.
Digamos que nesta terra criminosos possam andar livremente pelas ruas e aparecer com um belo sorriso amarelo na televisão. Seus discursos seriam tocantes e animadores, mas suas intenções nefastas e aterradoras.
Em Anarco-utopia, até existem alguns loucos que exigem mudanças e ficam inconformados com tamanha perversidade, mas nada que consiga muito destaque. Imaginem que lá, políticos corruptos e acusados de crimes podem se candidatar às maiores esferas do poder.
Mas espere um pouco, meu caro leitor. Não sei por que, mas Anarco-utopia me lembra um lugar abaixo do Equador, onde não há pecados e o carnaval com seus traseiros esvoaçantes funcionam como uma borracha para as mazelas do sofrido povo.
Pois é, Anarco-utopia nada mais é que um vislumbre de Brasil que tive durante uma evacuação mental num momento de leve alcoolismo e ócio.
Vivemos no país das obviedades. Somos obrigados a jazer numa terra de malucos que não conseguem discernir , provavelmente de propósito, o certo do errado.
Não pense que seja algo muito complexo como a legalização da maconha ou o aborto em casos de estupro. Damos voltas em mais voltas ao redor de assuntos que, em lugares minimamente sérios, seriam tratados como supérfluos.
Vide o projeto Ficha Limpa, que teve seu embrião no longínquo ano de 1997 e precisou de 15 anos até que fosse implementado num processo eleitoral. Porém não se esqueça, você aí que está me lendo, que tudo pode acontecer até chegar o dia de cumprirmos nosso dever cívico e perder uma tarde de domingo para votar em pessoas de caráter tão lustroso.
Sinceramente, não ficaria nem um pouco surpreso se novamente o Ficha Limpa fosse posto de lado com as promessas de que nas próximas eleições certamente a lei entraria em vigor, assim como ocorreu em 2010. E cairíamos novamente no mundo das obviedades.
Para piorar nossa situação, brasileiros, não temos só o problema dos deputados Irmãos Metralha para nos preocupar. O que dizer então das pessoas morrendo nas filas dos postos de saúde enquanto mega Arenas esportivas são içadas aos céus. Realmente estão fazendo um belo trabalho para a Copa e para as Olimpíadas, pena que poucos brasileiros terão poder aquisitivo para frequentar esses eventos...
E o que dizer da nossa carga tributária (a maior!) padrão Suécia disponibilizando ao povo nordestino um padrão de vida senegalês? A velha máxima do é dando que se recebe realmente não é muito vista por terra brasilis. Aqui onde mais se recebe é nos fundilhos, e o que mais se dá é o resto de dignidade que, ainda, aparentamos ter.
Viva viva. Três vivas para os senhores obviamente óbvios.
Não esquecendo que em 2012 teremos eleições e começa de novo o shows de horrores para a população brasileira assistir de camarote. Eleitores babando na frente da televisão é sempre uma opção muito recorrente e desejada pelos nossos senhores; afinal, é para isso que eles trabalham mandato atrás de mandato.
Das ricas margens plácidas do Ipiranga até os seculares feudos das capitanias hereditárias do Nordeste brasileiro. Para onde olhar? Onde se esconder? Ainda há um lugar para fugir?
Oh, pátria mãe gentil... Salve salve! Salve o povo das obviedades!
quarta-feira, 12 de outubro de 2011
Tamanho é documento

Extremidades da anatomia não se restringem apenas a braços e pernas. Outra proeminência do corpo humano que nem sempre é muito observada – no meu caso, modéstia a parte, uma enorme proeminência – quando está funcionando bem alegra o dia de qualquer cidadão ranzinza, que acordou com o pé esquerdo e foi trabalhar na chuva.
Muitas vezes, o tamanho dessa extremidade pode causar um certo desconforto inicial nas relações, mas com cuidado e um pouco de jeitinho tudo se encaixa perfeitamente; até que frases como “Meu Deus, como é grande!” com o tempo e a intimidade se tornam cada vez mais raras.
Obviamente, todo este papo inicial ficaria muito estranho se você, leitor meu, tivesse uma mente promíscua. Pois está claro que a tal extremidade nada mais é do que o inocente nariz.
Oh, grande nariz. O famoso ladrão de oxigênio alvo do bullying juvenil espalhado pelas escolas do mundo. Fato que, se pensar bem, soa um pouco estranho se levarmos em conta nossa evolução a partir do macaco e que em algumas espécies de primatas o tamanho do nariz é um sinal da alta hierarquia. Em poucas palavras, na natureza onde o bicho pega, o narigão é quem comanda.
E falando em lideranças, países tradicionalmente conhecidos por seus narizes avantajados, como a Itália e a Turquia, não têm históricos de guerras entre si e sempre estão em harmonia. Muito diferente dos anglo-saxões de narizes “comuns” que sempre ficam de mal com os árabes de ventas robustas.
No entanto, mais do que uma questão de caráter nacional, o nariz é uma herança familiar. Que o diga este humilde escritor que teve a mesma sorte de seu pai, seu avô e hoje se orgulha do próprio nariz que chegou aos 5,2 cm, mesmo ele não sendo suficientemente bom para alcançar o recorde mundial de 8,9 cm. Paciência, na vida não se pode ter tudo.
E se você que conseguiu chegar até o final desse texto e até agora não se identificou com a causa dos narigudos, provavelmente é porque não tem um. Mas pode ficar tranquilo que um dia nos entenderá, pois, como dizem por aí, a idade vem chegando e o nariz nunca para de crescer.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Nos desembalos das 7 da manhã
Todos caminham como gladiadores que em breve terão que matar uma temida fera. Os rostos perdidos no meio da multidão esboçam a nostalgia de suas casas e do sono da noite anterior, mas o dever lhes impõe uma longa Odisséia, perigosa e incerta.
Nossos gladiadores – nos quais me incluo – vivem na modernidade do aperto e desconforto do campo de batalha que em nada se parece com o dos tempos de Spartacus. Esta zona de combate contemporânea que é ao mesmo tempo temida, odiada e necessária é a linha vermelha do metrô de São Paulo.
Pode parecer exagero, mas se você, meu amigo (a), ainda é um virgem na arte de pegar metrô, pense que dentro dos vagões do trecho leste-oeste é totalmente comum seis pessoas ocuparem o mesmo metro quadrado.
E por falar em vagões, dentro deles está escondido o Santo Graal de cada passageiro: os bancos. Isso mesmo. Aqueles bancos de plástico, duros e simples, que são o motivo de vários rounds de cotoveladas e empurrões que só acabam após o “PIIIIII” do fechamento das portas. Exatamente como o gongo funciona no boxe.
E depois de muitos contorcionismos, os abençoados pela graça Divina que conseguiram entrar primeiro nos vagões têm o livre arbítrio para escolher entre os bancos marrons e os azuis. Mas é óbvio que a preferência é pelos marrons, porque, infelizmente, os azuis podem causar danos terríveis às pessoas saudáveis; afinal, não é difícil ver usuários que estão neles sofrerem de um sono devastador exatamente na hora em que entra uma grávida ou um idoso no metrô.
Contudo, engana-se quem pensa que metrô é só martírio. Metrô também é entretenimento! Há inclusive encenações muito bem trabalhadas de pedintes que não conseguiram curar suas doenças ou arranjar um emprego ao longo dos meus 10 anos de rotina metroviária. Sempre com os mesmos atores, e tudo em troca de uma mísera moedinha.
Os estudantes que pretendem seguir uma carreira que exija conhecimentos de física também contam com uma contribuição considerável da linha vermelha. Um dos bons exemplos disso ocorre na estação Brás, onde uma das leis de Newton é totalmente desmoralizada, pois a partir dessa estação dois corpos passam a ocupar o mesmo lugar no espaço. Por sorte, a credibilidade de Newton não é totalmente perdida, já que na estação Sé sua primeira Lei se faz presente e é comprovada quando mesmo que o felizardo não queira desembarcar, ele acaba desembarcando por inércia, todos os dias entre seis e oito da manhã e cinco e nove da noite.
São tantas horas perdidas dentro de uma estrutura de alumínio que nós, passageiros, nos transformamos numa família como qualquer outra. Temos brigas e desentendimentos, mesmo estes sendo causados na maioria das vezes por empurrões ou por cavalheiros que tentam se aproveitar de damas indefesas que frequentam os estreitos corredores. Mas nada que não se resolva com uma singela e exaustivamente repetida frase: “se não está contente vai de táxi!”.
Nossos gladiadores – nos quais me incluo – vivem na modernidade do aperto e desconforto do campo de batalha que em nada se parece com o dos tempos de Spartacus. Esta zona de combate contemporânea que é ao mesmo tempo temida, odiada e necessária é a linha vermelha do metrô de São Paulo.
Pode parecer exagero, mas se você, meu amigo (a), ainda é um virgem na arte de pegar metrô, pense que dentro dos vagões do trecho leste-oeste é totalmente comum seis pessoas ocuparem o mesmo metro quadrado.
E por falar em vagões, dentro deles está escondido o Santo Graal de cada passageiro: os bancos. Isso mesmo. Aqueles bancos de plástico, duros e simples, que são o motivo de vários rounds de cotoveladas e empurrões que só acabam após o “PIIIIII” do fechamento das portas. Exatamente como o gongo funciona no boxe.
E depois de muitos contorcionismos, os abençoados pela graça Divina que conseguiram entrar primeiro nos vagões têm o livre arbítrio para escolher entre os bancos marrons e os azuis. Mas é óbvio que a preferência é pelos marrons, porque, infelizmente, os azuis podem causar danos terríveis às pessoas saudáveis; afinal, não é difícil ver usuários que estão neles sofrerem de um sono devastador exatamente na hora em que entra uma grávida ou um idoso no metrô.
Contudo, engana-se quem pensa que metrô é só martírio. Metrô também é entretenimento! Há inclusive encenações muito bem trabalhadas de pedintes que não conseguiram curar suas doenças ou arranjar um emprego ao longo dos meus 10 anos de rotina metroviária. Sempre com os mesmos atores, e tudo em troca de uma mísera moedinha.
Os estudantes que pretendem seguir uma carreira que exija conhecimentos de física também contam com uma contribuição considerável da linha vermelha. Um dos bons exemplos disso ocorre na estação Brás, onde uma das leis de Newton é totalmente desmoralizada, pois a partir dessa estação dois corpos passam a ocupar o mesmo lugar no espaço. Por sorte, a credibilidade de Newton não é totalmente perdida, já que na estação Sé sua primeira Lei se faz presente e é comprovada quando mesmo que o felizardo não queira desembarcar, ele acaba desembarcando por inércia, todos os dias entre seis e oito da manhã e cinco e nove da noite.
São tantas horas perdidas dentro de uma estrutura de alumínio que nós, passageiros, nos transformamos numa família como qualquer outra. Temos brigas e desentendimentos, mesmo estes sendo causados na maioria das vezes por empurrões ou por cavalheiros que tentam se aproveitar de damas indefesas que frequentam os estreitos corredores. Mas nada que não se resolva com uma singela e exaustivamente repetida frase: “se não está contente vai de táxi!”.
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