sábado, 12 de abril de 2014

São Paulo poderá ter pedágios urbanos

Projeto do vereador Carlos Apolinário busca a diminuição dos congestionamentos e da poluição. Dinheiro será revertido para o transporte público

Buscando a melhoria do trânsito de São Paulo, está em tramitação na Câmara Municipal um projeto de Lei proposto pelo vereador Carlos Apolinário (DEM) que visa a implementação de pedágios urbanos no centro expandido da cidade. O projeto foi considerado legal pela CCJ (Comissão de Constituição de Justiça) no último dia 25 de abril, mas ainda não há prazo para que a Lei seja votada e sancionada.

A taxa cobrada para os veículos que circularem pelo centro expandido será de quatro reais por dia, não importando o número de vezes que o motorista circular pela área, que é a mesma onde já funciona o rodízio municipal. Se o cidadão tiver de ir todos os dias ao centro, o máximo que ele pagará será 88 reais mensais, pois nos fins de semana e feriados a circulação será isenta de cobrança.

Segundo o vereador Carlos Apolinário, redator do projeto, o dinheiro arrecadado deverá ir para o transporte público. Pelos cálculos do vereador e sua equipe, tendo como base os números da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego), a cobrança renderá a São Paulo dois bilhões de reais anuais, dinheiro que tornaria possível a criação de mais corredores de ônibus e a construção de aproximadamente 10 km de metrô por ano, já que cada quilômetro de linha custa ao governo 220 milhões de reais.

A CET, contudo, afirmou à reportagem não ter o número de veículos que circulam diariamente pelo centro expandido de São Paulo. Nas marginais existe o levantamento, e foi constatado que pela marginal Tietê passam 180 mil carros por dia, enquanto na marginal Pinheiros são 350 mil. Pelos cálculos, a arrecadação mensal com os pedágios urbanos seria de aproximadamente 10 milhões e 200 mil reais.

Por outro lado, o arquiteto, urbanista e professor da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo – USP) Cândido Malta Campos Filho fez um levantamento próprio, no qual “anualmente a cidade arrecadará 600 milhões de reais, o que tornaria possível a construção de 2 km de metrô por ano”. Atualmente, é construído apenas 1 km de metrô ao ano.

O professor Cândido acredita que a curto prazo não há outra saída a não ser a implementação de pedágios, e defende que este projeto diminuiria 30% da frota de veículos que circulam diariamente pela capital paulista, o que auxiliaria, inclusive, na redução dos problemas de estresse da população.

Para Cândido Malta, a malha metroviária já existente em São Paulo não comportará um número maior de pessoas usando o transporte coletivo e, por isso, seria necessária a criação de mais linhas de micro-ônibus interligando as regiões de acesso aos metrôs e trens.

Dentro da proposta do projeto de lei, Carlos Apolinário estipula que todos os veículos tenham instalados chips de identificação, o que tornaria possível a fiscalização dos veículos que entrarem no centro expandido. O sistema de cobrança, segundo Apolinário, seria semelhante ao sistema Sem Parar de pedágio e estacionamento, com emissão de cobranças mensais. O projeto propõe ainda que os táxis estarão livres da taxação para que o preço das corridas não aumente. Para os carros de fora do município de São Paulo, mas que percorrem as regiões da cidade onde ocorrerá a cobrança, ainda não existe um planejamento.

No início de 2012, a presidenta Dilma Rousseff sancionou a Lei Mobilidade Urbana, que libera municípios com mais de 20 mil habitantes a terem pedágios urbanos. Carlos Apolinário tem a mesma opinião do professor Cândido Malta, em que os pedágios são o único modo de reduzir os congestionamentos, a poluição causada pelos carros e incentivar as pessoas a utilizarem meios alternativos de transporte. “Na minha casa, eu tenho carro, minha mulher tem carro, meu filho tem carro e minha neta (de 16 anos) já está pensando em um carro. Essa é a nossa mentalidade. As pessoas precisam voltar a ter um pouco mais de razão em relação à saúde, em relação à cidade”, afirma Apolinário.

O próprio Carlos Apolinário concorda que o projeto dos pedágios é impopular e que dificilmente será votado em 2012, ano de eleições municipais. “O pedágio urbano é um projeto impopular. Para implementá-lo tem que ser por um prefeito eleito. Só existem duas pessoas a favor dele: o professor Cândido Malta, pelo trânsito, e o Secretário do Verde e Meio Ambiente, Eduardo Jorge Martins Alves Sobrinho, pelo meio ambiente.”

Antes de ser votado, o projeto de Lei ainda terá de passar pela Comissão de Transportes e pela Comissão de Finanças. Procuradas pela reportagem, CET e SPTrans afirmaram que ainda não realizam estudos sobre a implementação dos pedágios.

Do legume à Portugal


A artrite já não permite que os dedos que outrora ceivavam o que a terra disponibilizasse para comer durante o ano todo cortem com destreza os legumes para um almoço simples, porém farto, para si própria e para a filha num almoço casual em plena terça-feira. Já sabendo do conteúdo da conversa, o olhar se perde num infinito longínquo de lembranças a cada pedaço de cenoura que se choca com um simples vasilhame de plástico em cima da pia.

Uma ilha sem muitos recursos, perdida no Atlântico, não proporciona oportunidades, para que pessoas enriqueçam por seu trabalho e força de vontade. Na Ilha da Madeira, é mais provável que a terra absorva o ser humano do que o inverso. “Nasci e morei lá até os 40 anos, mas nunca mais voltei e não tenho a mínima vontade de voltar. Você voltaria para onde a única lembrança é de sofrimento e fome?”.
Maria de Freitas Caetano, 92 anos, já passou mais de metade de sua vida morando no Brasil, mais precisamente na zona leste de São Paulo. Contudo, mesmo com toda a ojeriza de lembranças de sua terra natal, ainda não perdeu o caraterístico sotaque português da Ilha da Madeira. Segundo ela, um jeito menos anasalado e complicado de se falar, que provavelmente é uma mistura do sotaque português de Portugal com o de judeus e marroquinos que serviram como escravos durante o povoamento da ilha.

Mais antiga que o descobrimento do Brasil, a colonização da Ilha da Madeira teve início ainda, no século XIV, para ser uma colônia de exploração e, principalmente, para desafogar as prisões de Portugal. “As pessoas do continente nos chamavam de carrascos, pelos nossos antepassados. Eu já era estrangeira na minha terra e vim ser estrangeira também no Brasil”, relata Maria com bom humor.
De mudança para o outro lado do Atlântico com o marido e quatro filhos pequenos, com as passagens ainda em débito com vizinhos, Maria vislumbrou um futuro melhor longe da terra onde nascera. “Tinha familiares no Brasil. Eles diziam que trabalhavam muito como lá, mas que pelo menos aqui se ganhava dinheiro para sobreviver sem fome”.

Maria viveu em um cortiço e vendia bordados, enquanto o marido trabalhava em uma fábrica de colchões da Probel. Suas irmãs conseguiram se estabelecer e compraram terras no interior do estado de São Paulo, porém Maria não teve a mesma oportunidade e recorreu à cidade grande para tentar realizar seu projeto de uma vida melhor.
Hoje, a senhora portuguesa gasta seu tempo bordando por hobbie e não tem as preocupações financeiras de antigamente. “Consegui estudar todos os meus filhos e essa foi minha sorte. Gasto quase mil reais com medicamentos por mês e, graças a Deus, não tenho que me preocupar com isso”.

Nesse mesmo momento, sua filha, que se chama Alcinda, lança-lhe um olhar ressabiado e dá um risada irônica antes de soltar um leve puxão de orelha na idosa: “Só porque a senhora não paga nada, não quer dizer que esteja tudo bem. Olha quanto sal na comida. Diminui que a conta dos remédios também caem”. Maria se deu o direito de fingir que não escutou essa argumentação.
Maria pode ser considerada o estereótipo da senhorinha bonachona. A qualquer momento, os olhos já cercados por rugas lançam olhares de complacência acompanhados de um sorriso e sempre com as mesmas palavras iniciando suas frases: “oh, meu filho...” ou “oh, meu filhi...”, se formos levar ao pé da letra o sotaque madeirense.

O almoço acabou e Maria se levanta com dificuldade para se dirigir até a sala de sua casa para cochilar um pouco. A idade avançada já está pesando sobre suas pernas, e a silhueta espaça contribui com a dificuldade de respirar num percurso de apenas dez metros que ilustra a frase dita por sua filha há pouco mais de 30 minutos.

“Acho que minha pressão está um pouco baixa”, diz Maria a sua filha, ao se sentar em sua poltrona. Alcinda joga os olhos para cima, relaxa os braços em sinal de desistência e sai para trabalhar sem falar “tchau”. Maria ganhou a batalha pelo direito do sal.
Antes de tirar seu merecido cochilo após o almoço, Maria faz uma oração em voz baixa de maneira demorada. “Estou agradecendo tudo que eu tenho e pedindo paz para aqueles que já se foram”. Maria perdeu o marido há pouco mais de dois anos e, durante sua vida, viu seis de seus filhos morrerem em decorrência da falta de recursos tanto na Ilha da Madeira quanto no Brasil. “Passei por muitas tristezas, mas não vai demorar pra eu ir encontrar o meu velho”.

Para os amigos que a conhecem desde os velhos tempos, Maria sempre disse que não ia durar muito, pois sempre foi muito doente. Mas já chegou aos 92 anos, e os cem estão logo ali.

A nova política tabagista brasileira


Preço do cigarro aumenta e influencia no bolso do consumidor


O preço do cigarro aumentou no último dia primeiro de maio e está alterando a rotina dos fumantes que agora estão fazendo contas para avaliar se ainda vale a pena continuar com o cigarro. “Antes eu gastava 100 ou 120 reais por mês. Agora vou gastar uns 150 reais. É uma boa hora para parar de fumar”, afirma o estudante Rodolfo Paioletti, 20 anos.

O governo aumentou o modelo de cobrança do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) dos cigarros, com a nova aliquota reajustada para 14% a partir do dia 06 de abril de 2012. Esse reajuste trará aos consumidores o preço já reajustado a partir dos varejistas. Além deste reajuste, o governo também impôs aos varejistas que maços de cigarro devem chegar ao bolso do consumidor por no mínimo 3 reais, sujeitando-o à punições legais caso esta nova implementação não seja seguida.

O IPI é cobrado pelo governo federal com base no valor dos produtos manufaturados pela indústria nacional, portanto, está presente sobre todos os produtos industrializados. O economista e professor pela Universidade São Judas Tadeu, Davi D. Dantas, foi entrevistado e explicou o aumento do IPI dos cigarros como uma ação do governo para estimular que as pessoas parem de fumar. "Há alguns anos o governo federal tem sinalizado com uma política publica de maior restrição ao consumo de cigarros, por essa razão aumenta o IPI do produto."

O professor afirma que os fumantes terão que pagar mais caro para satisfazer seus desejos e que os não fumantes podem até ser beneficiados: "Com relação aos não fumantes, a medida indiretamente os beneficias porque as pessoas devem consumir menos cigarros, ou, se mantiverem o consumo normal, pagarão mais impostos ao governo, que poderá redistribuí-los na forma de benefícios á população geral.”

Em relação às outras mudanças causadas pelo aumento do valor do cigarro, Dantas afirma: "A indústria tabagista envolve vários setores da economia, principalmente na produção do fumo, realizadas em pequenas e médias propriedades agrícolas. Deste modo, a redução do consumo implica mudanças nos padrões de produção destas unidades agrícolas."

O Doutor em Economia Política pela UFRJ, Ernesto Salles, 27 anos, também explica que o cigarro influencia na inflação brasileira, porém o efeito é reduzido. “No índice mais comum, o IPCA do IBGE, o peso do tabaco na cesta de bens sobre a qual a inflação é calculada é inferior a 1%. Além disso, é importante ter em conta que aumentos de impostos, ainda que impactem sobre o preço em um primeiro momento não constituem fator de pressão inflacionária, uma vez que uma vez reajustado, esse valor permanecerá estável nos meses seguintes.”, afirma o Doutor.

Com o acréscimo no valor, apesar da expectativa de que o número de fumantes caísse quando foi concretizado o aumento, vendedores e donos de estabelecimentos que vendem cigarros dizem o contrário. "Pessoas que ganham menos procuram por cigarros mais baratos, mas no número de vendas não mudou muita coisa", afirma José Adauto Araújo, 47 anos, dono de uma padaria. "Teve um cliente que eu fui informar do aumento, ele me disse que mesmo custando R$ 50,00 ele vai continuar fumando", conta Marta Silveira, 38 anos, dona de uma banca de jornal.

A frase do aposentado Ângelo Zago, 84 anos, prova que o aumento ainda não afetou diretamente no seu consumo. “Eu fumo desde os 15 anos. O meu vício impede que eu diminua, então eu continuo comprando o mesmo número de cigarros mesmo o preço tendo sido elevado”.
Inicialmente o aumento sobre a tributação do cigarro estava previsto para novembro de 2011, mas após um decreto emitido pelo governo, o reajuste foi adiado para abril do próximo ano. Em nota emitida pela fabricante Souza Cruz, diz-se: "A Souza Cruz, em virtude da necessidade de administrar os impactos desta medida, repassará aos seus produtos um aumento médio de 24% a partir de 6 de abril".

Em entrevista ao Valor Econômico, Andrea Martini, presidente da companhia prevê que com esta medida, o consumo de cigarros no país diminua. E isso é previsto sem a utilização de valores reais ou projeções de demanda. Já no ano passado a empresa registrou uma diminuição de 1,4% no volume de cigarros vendidos.

O novo preço dos cigarros pode variar de acordo com a marca, os ingredientes e a apresentação do produto, de acordo com o intervalo de R$ 0,76 a R$ 1,30 sobre a taxação do IPI. O decreto prevê um aumento de 55% no preço final que chega às mãos do consumidor. A arrecadação total do governo sobre os cigarros vai aumentar, segundo projeções da Receita Federal, passando de R$ 3,7 bi/ano para R$ 7,7 bi/ano em 2015. Esta arrecadação será usada pelo governo para compensar a perda de R$ 20,7 bilhões referente ao pacote de auxílio à empresas que contém desonerações de produtos, além de outras medidas favoráveis à concorrência.
"O preço do cigarro está um absurdo, eu sei que isso serve de incentivo para as pessoas pararem de fumar, mas eu acredito que existam outros vícios que são muito mais baratos e, dessa forma acabam sendo até mesmo incentivados", começa Andressa Melo, 19 anos, estudante e fumante. "O álcool, por exemplo, é mais viciante e muito mais consumido que o cigarro. Se você pensar na proporção do preço do litro da cerveja, por exemplo, acaba sendo muito mais acessível", conclui Andressa.

Os fabricantes, porém, podem escolher entre dois modos de produção e distribuição dos cigarros. Ele poderá escolher entre o Regime Geral ou o Regime Especial. Caso escolha permanecer no regime geral, terá que aceitar um aumento de 81% na carga tributária. O artigo 2 do informe disponibilizado pela receita federal diz: “O IPI, seja no regime geral ou especial, será apurado e recolhido uma única vez pelo estabelecimento industrial, nas saídas dos cigarros destinados ao mercado interno, ou pelo importador, no desembaraço aduaneiro dos cigarros de procedência estrangeira. Além disso, na hipótese de adoção de preços diferenciados em relação a uma mesma marca comercial de cigarro, prevalecerá, para fins de apuração e recolhimento do IPI, o maior preço de venda no varejo praticado em cada Estado ou no Distrito Federal”.

O artigo 5º do decreto nº 7555 aponta que aqueles que optarem pelo Regime Especial poderão apurar e recolher o IPI através da somatória de duas parcelas, calculadas a partir de tabelas das seguintes alíquotas:


VIGÊNCIA ALÍQUOTAS
AD VALOREM ESPECÍFICA
MAÇO BOX
01/12/2011 a 30/04/2012 0% R$ 0,80 R$ 1,15
01/05/2012 a 31/12/2012 40,0% R$ 0,90 R$ 1,20
01/01/2013 a 31/12/2013 47,0% R$ 1,05 R$ 1,25
01/01/2014 a 31/12/2014 54,0% R$ 1,20 R$ 1,30
A partir de 01/01/2015 60,0% R$ 1,30 R$ 1,30


O reflexo deste aumento poderá ser melhor visto dentro de alguns anos, uma vez que a projeção do governo prevê um preço final de R$ 12,00 para o maço de cigarro. Além da diminuição de demanda, prevê-se uma diminuição de oferta, já que aqueles que não seguirem às estipulações previstas no decreto podem sofrer consequências penais, como a probição da venda por parte do distribuidor ou o registro suspenso por parte do fabricante.


Roger Waters emociona 60 mil pessoas no Morumbi

Roger Waters emociona 60 mil pessoas no Morumbi

Nos portões do Morumbi o clima para o show do ex- Pink Floyd não era muito diferente ao de outros espetáculos. A massa trajando preto e caminhando a passos lentos sorria e cantava regada a doses cavalares de cerveja e vinho químico, que logo se tornariam suor e vômitos se esvaindo em clamor por Roger Waters.

A passagem pelos portões é sempre marcada como um momento mágico; o momento em que cai a ficha e um estranho otimismo toma conta do ar. Amigos se abraçam como nunca e riem de maneira cativante. Nessa hora é fácil imaginar o tema da vitória da Fórmula 1 tocando ao fundo.
Lendas do rock, para nós que vivemos no Brasil e não estamos acostumados com eles por aqui o tempo todo, são como uma espécie de Divindade. Os veneramos por anos, mesmo sem nunca termos chegado perto deles para confirmar sua existência.

Atualmente, contudo, muitos artistas que há 15 anos nem sonharíamos ver estão vindo ao Brasil. Iron Maiden, Kiss, U2 e outras bandas agora se dão ao luxo de cruzar o Atlântico e descobrir um novo cantinho na América.

Parecia mentira, afinal, o show foi exatamente no dia 1 de abril, mas o palco para este grande evento não tinha toda a parafernália de caixas de som e telões múltiplos que são comuns em um show de rock.

Estava ali um palco bem cumprido, com 137 metros, mas com apenas um pequeno telão redondo e uma parede destruída bem onde a banda ficava. Aliás, o show era inteiramente feito com o álbum The Wall, lançado em 1979.

Roger, já um senhor com uma vasta cabeleira branca, dessa vez não surgiu com o tradicional baixo de quatro cordas que lhe acompanhava nos velhos tempos, mas sim com um violão preso ao ombro. Um aviador cobria boa parte de seu rosto, estava todo vestido de preto e ostentava um andar firme.

Não fez nenhuma saudação. Apenas apareceu e começou os primeiros acordes de In the flesh?. Impossível não notar a semelhança do cantor com Richard Gere.

Na plateia, olhos brilhando e gritos abafados pelos pulos que logo cessaram com o mar de cabeças que balançavam ao som lento, repetitivo e pesado da música de abertura do The Wall. Parecia que todos estavam numa transe ensaiada com movimentos quase idênticos, porém involuntários.

Ao todo foram tocadas 28 músicas durante duas horas e meia de show. O The Wall tem um significado especial para Roger Waters, pois as músicas são autobiográficas e são da trilha sonora do filme que leva o mesmo nome.

Ao longo do show, a parede que estava quebrada no meio foi aos poucos sendo reconstruída. Tão lentamente que muitos na plateia só perceberam a mudança quando ela estava completa e havia se tornado um imenso telão onde eram projetadas imagens variadas e as letras das músicas. Tudo ficou um pouco psicodélico nesse momento.

O telão e as caixas de som conversavam. Uma bomba explodia virtualmente atrás de Roger, mas quem sentia o impacto nos ouvidos era o público que não sabia ao certo se aquele barulho era real ou não. “Estava tudo muito lindo. Não esperava tanta produção no show do Rogério Águas (risos)”, diz Juliana Stankevicius, estudante, 20 anos.

Os sons que não faziam parte da banda, como de um helicóptero ou de crianças berrando e cantando não partiam das caixas de som do palco, mas sim de amplificadores colocados em cima do anel superior do estádio.

A sensação era de que realmente haviam crianças e helicópteros muito próximos do Morumbi, tanto que a todo o momento as pessoas olhavam para o alto em busca de alguma aeronave sempre com cara de interrogação e, depois, davam um leve sorrisinho ao perceberem que aquilo não era real.

“Nunca gostei muito de Pink Floyd, ficava mais no respeito por ser uma grande banda. Depois do show - que, agora, considero um espetáculo - comecei a gostar muito mais. A ‘parede’ era extremamente bem feita e o som era simplesmente espetacular”, afirma o estudante Andreas Couto, 20 anos.

Também foi possível notar que o show é extremamente teatral, e que Roger deve ter tido alguma dificuldade para decorar cada movimento feito durante o show. Algumas vezes o Roger do telão fazia os movimentos antes do Roger ao vivo.

Terminado o espetáculo, foram poucos os espectadores que sentiram falta dos outros quatro integrantes que formavam o Pink Floyd junto com Roger. Os efeitos especiais, a alta qualidade de som e , claro, o ótimo desempenho do artista de 68 anos de idade não deixaram lacunas a serem preenchidas.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Nunca antes na história desse país

Talvez a frase que mais tenha ficado marcada na cabeça do povo brasileiro entre as tantas ditas pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante seus oito anos de governo tenha sido a saudosa “nunca antes na história desse país...”.

No que diz respeito a algumas ações de seu governo, talvez Lula estivesse certo em usar algumas vezes este jargão. Contudo, provavelmente ele se esqueceu que no passado um certo presidente passou por muitos problemas e momentos de glória semelhantes aos seus.

Estudando um pouquinho de história da política brasileira, pode-se constatar que tanto Lula, como Getúlio Vargas tiveram atitudes e vivenciaram situações parecidas. Durante uma reunião ministerial em 30/08/07, o próprio Lula se comparou a Vargas, dizendo que estava “convencido que as realizações sociais e econômicas e o projeto de país só terão comparação com o governo do presidente Getúlio Vargas”.

Ambos os presidentes foram homens populistas, carismáticos e amados pela classe operária. Conseguindo isso graças às políticas assistencialistas e ao Nacionalismo acima de tudo; mesmo que seus opositores rogassem pelas políticas do Liberalismo.

Para chegar ao poder, Lula galgou durante três eleições perdidas até conseguir trocar seu apartamento em São Bernardo pelo Palácio da Alvorada, em Brasília. Nesses 12 anos de tentativas, foi derrotado por Collor e FHC, em duas oportunidades.

Já Vargas subiu ao poder de maneira indireta, pelo fato de a Oligarquia de São Paulo ter quebrado o acordo com a Oligarquia de Minas Gerais pelo revezamento do poder sobre o Brasil. Com a vitória da aliança entre Paraíba, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, o gaúcho Getúlio Vargas se tornou presidente. Somente o segundo mandato de Getúlio veio por meio da democracia.

Com a imprensa os dois também tiveram uma relação de amor e ódio. Durante suas vidas políticas, angariaram alguns opositores de peso, mas nenhum conseguiu manchar suas imagens com a população.

Vargas recebeu uma oposição ferrenha por parte da grande imprensa e principalmente do jornalista Carlos Lacerda e o jornal Tribuna da Imprensa. Porém, recebeu apoio de Samuel Weiner e o jornal a Última Hora, mesmo que o diário de Weiner só tenha sido aberto com o dinheiro emprestado do Banco do Brasil por Getúlio.

Lula, por sua vez, foi alvo críticas e oposição aberta da revista Veja ao longo dos seus oito anos de mandato, assim como de outros veículos também, mas nada tão escancarado como o da revista. Por outro lado, teve apoio da Caros Amigos e da Carta Capital.

Nas alianças políticas, Lula barganhou o apoio dos antigos alvos de suas “pedras”, como José Sarney e Fernando Collor, conseguindo manter a maioria no congresso mesmo perante a forte oposição do PSDB e seus aliados.

A pedra no sapato de Vargas sempre foi a UDN de Carlos Lacerda. O partido fazia oposição por oposição e ,reza a lenda, na criação da Petrobrás Getúlio sugeriu que a estatal fosse uma empresa público-privada apenas para que a UDN fosse contra seus princípios liberais e o capital da petrolífera se tornasse inteiramente nacional.

Nos escândalos, uma CPI para cada um. Nos “louros”, o virtual posto de pais de milhões de brasileiros. Vargas morreu e se tornou um mártir.

Lula no momento está doente, vítima de um câncer e passa por uma quimioterapia. Estará caminhando ao encontro da história política brasileira mais uma semelhança entre os dois ex-presidentes?

Aos senhores obviamente óbvios


A sociedade perfeita de Utopia idealizada por Thomas Morus no século XVI nem chegou perto de ser posta em prática em nenhuma nação. Mas agora pensemos num país imaginário, é claro, em que para onde se olhe existe algo extremamente errado e mesmo assim tudo continua na maior normalidade. Vamos chamar este lugar de Anarco-utopia.

Digamos que nesta terra criminosos possam andar livremente pelas ruas e aparecer com um belo sorriso amarelo na televisão. Seus discursos seriam tocantes e animadores, mas suas intenções nefastas e  aterradoras.

Em Anarco-utopia, até existem alguns loucos que exigem mudanças e ficam inconformados com tamanha perversidade, mas nada que consiga muito destaque. Imaginem que lá, políticos corruptos e acusados de crimes podem se candidatar às maiores esferas do poder.

Mas espere um pouco, meu caro leitor. Não sei por que, mas Anarco-utopia me lembra um lugar abaixo do Equador, onde não há pecados e o carnaval com seus traseiros esvoaçantes funcionam como uma borracha para as mazelas do sofrido povo.

Pois é, Anarco-utopia nada mais é que um vislumbre de Brasil que tive durante uma evacuação mental num momento de leve alcoolismo e ócio.

Vivemos no país das obviedades. Somos obrigados a jazer numa terra de malucos que não conseguem discernir , provavelmente de propósito, o certo do errado.

Não pense que seja algo muito complexo como a legalização da maconha ou o aborto em casos de estupro. Damos voltas em mais voltas ao redor de assuntos que, em lugares minimamente sérios, seriam tratados como supérfluos.

Vide o projeto Ficha Limpa,  que teve seu embrião no longínquo ano de 1997 e precisou de 15 anos até que fosse implementado num processo eleitoral. Porém  não se esqueça, você aí que está me lendo, que tudo pode acontecer até chegar o dia de cumprirmos nosso dever cívico e perder uma tarde de domingo para votar em pessoas de caráter tão lustroso.

Sinceramente, não ficaria nem um pouco surpreso se novamente o Ficha Limpa fosse posto de lado com as promessas de que nas próximas eleições certamente a lei entraria em vigor, assim como ocorreu em 2010. E cairíamos novamente no mundo das obviedades.

Para piorar nossa situação, brasileiros, não temos só o problema dos deputados Irmãos Metralha para nos preocupar. O que dizer então das pessoas morrendo nas filas dos postos de saúde enquanto mega Arenas esportivas são içadas aos céus. Realmente estão fazendo um belo trabalho para a Copa e para as Olimpíadas, pena que poucos brasileiros terão poder aquisitivo para frequentar esses eventos...

E o que dizer da nossa carga tributária (a maior!) padrão Suécia disponibilizando ao povo nordestino um padrão de vida senegalês? A velha máxima do é dando que se recebe realmente não é muito vista por terra brasilis. Aqui onde mais se recebe é nos fundilhos, e o que mais se dá é o resto de dignidade que, ainda, aparentamos ter.

 Viva viva. Três vivas para os senhores obviamente óbvios.

Não esquecendo que em 2012 teremos eleições e começa de novo o shows de horrores para a população brasileira assistir de camarote. Eleitores babando na frente da televisão é sempre uma opção muito recorrente e desejada pelos nossos senhores; afinal, é para isso que eles trabalham mandato atrás de mandato.

Das ricas margens plácidas do Ipiranga até os seculares feudos das capitanias hereditárias do Nordeste  brasileiro. Para onde olhar? Onde se esconder? Ainda há um lugar para fugir?

 Oh, pátria mãe gentil... Salve salve! Salve o povo das obviedades!

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Tamanho é documento


Extremidades da anatomia não se restringem apenas a braços e pernas. Outra proeminência do corpo humano que nem sempre é muito observada – no meu caso, modéstia a parte, uma enorme proeminência – quando está funcionando bem alegra o dia de qualquer cidadão ranzinza, que acordou com o pé esquerdo e foi trabalhar na chuva.

Muitas vezes, o tamanho dessa extremidade pode causar um certo desconforto inicial nas relações, mas com cuidado e um pouco de jeitinho tudo se encaixa perfeitamente; até que frases como “Meu Deus, como é grande!” com o tempo e a intimidade se tornam cada vez mais raras.

Obviamente, todo este papo inicial ficaria muito estranho se você, leitor meu, tivesse uma mente promíscua. Pois está claro que a tal extremidade nada mais é do que o inocente nariz.

Oh, grande nariz. O famoso ladrão de oxigênio alvo do bullying juvenil espalhado pelas escolas do mundo. Fato que, se pensar bem, soa um pouco estranho se levarmos em conta nossa evolução a partir do macaco e que em algumas espécies de primatas o tamanho do nariz é um sinal da alta hierarquia. Em poucas palavras, na natureza onde o bicho pega, o narigão é quem comanda.

E falando em lideranças, países tradicionalmente conhecidos por seus narizes avantajados, como a Itália e a Turquia, não têm históricos de guerras entre si e sempre estão em harmonia. Muito diferente dos anglo-saxões de narizes “comuns” que sempre ficam de mal com os árabes de ventas robustas.

No entanto, mais do que uma questão de caráter nacional, o nariz é uma herança familiar. Que o diga este humilde escritor que teve a mesma sorte de seu pai, seu avô e hoje se orgulha do próprio nariz que chegou aos 5,2 cm, mesmo ele não sendo suficientemente bom para alcançar o recorde mundial de 8,9 cm. Paciência, na vida não se pode ter tudo.

E se você que conseguiu chegar até o final desse texto e até agora não se identificou com a causa dos narigudos, provavelmente é porque não tem um. Mas pode ficar tranquilo que um dia nos entenderá, pois, como dizem por aí, a idade vem chegando e o nariz nunca para de crescer.